O Bom Gigante Amigo

Steven Spielberg parece atualmente morrer de amores por política (Munique, Ponte dos Espiões, Lincoln, Cavalo de Guerra), o que não parece ter afetado As Aventuras de Tintim, mas que com certeza afeta O Bom Gigante Amigo. Curioso citar que este é um de seus filmes mais infantis em décadas.

Ou talvez o mais infantil de todos os tempos. Narrando a aventura da pequena Sofia (Ruby Barnhill) ao ser sequestrada por um velhinho gigante de orelhas ainda maiores ainda (Mark Rylance), a moral da história é que vale a pena mentir se você conseguir apelar para o uso da força estatal em vez de encarar seus próprios problemas. E quando se fala de força estatal, sempre haverá algum chefe de estado doido para invadir novas terras (mesmo que seja a Terra dos Gigantes).

Se como história, o filme se limita a descrever aquela terra, aquele velhinho, os gigantes bullies que o incomodam e como caçar e armazenar sonhos, como visual é muito interessante. Além de inserir elementos fantásticos na casa do Gigante Amigo, como uma cama que é um navio pirata, o próprio aspecto do gigante é notável. Ele lembra um gigante dos livros infantis, mas consegue ter expressões e movimentos extremamente humanos.

Além disso, a dublagem de Mark Rylance aqui desempenha um papel primordial para a humanização da criatura. Seu falar errado denota sua inocência, mas conseguir escrever denota sua vontade de melhorar. Ele consegue transformar um ser gigantesco em uma criatura doce e vulnerável, enquanto Ruby Barnhill transforma sua Sofia em um doce de criança, mas muito longe de ser a protagonista (o que é um dos problemas do longa).

(Aliás, graças aos espectadores adultos preguiçosos – nunca culpo as crianças, que são sempre mais ativas – haverá toneladas de versões dubladas em um português capenga nas salas de cinema, enquanto apenas uma minoria se beneficiará da dublagem de Rylance).

Agora, se usar a força estatal para invadir uma terra estrangeira por conta de um risco que nunca é sequer citado pelos gigantes malvados e alterar o destino daquelas criaturas simplesmente porque são “selvagens” me parece alegórico demais para não ter relação com a atual situação sócio-política da Europa e seus xenofóbicos de plantão. A meu ver, o Sr. Spielberg percebeu que existem outras maneiras de convencer o público adulto de seus ideais: filmes de criança. O inesperado, no caso, é ver o autor de A Lista De Schilder sugerir uma segregação cultural tão disparatada quanto essa.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-07-31. O Bom Gigante Amigo. The BFG (UK, 2016). Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Melissa Mathison, Roald Dahl. Com Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Jemaine Clement, Rebecca Hall, Rafe Spall, Bill Hader, Ólafur Darri Ólafsson, Adam Godley. imdb