O Bom Gigante Amigo

2016/07/31

Steven Spielberg parece atualmente morrer de amores por política (Munique, Ponte dos Espiões, Lincoln, Cavalo de Guerra), o que não parece ter afetado As Aventuras de Tintim, mas que com certeza afeta O Bom Gigante Amigo. Curioso citar que este é um de seus filmes mais infantis em décadas.

Ou talvez o mais infantil de todos os tempos. Narrando a aventura da pequena Sofia (Ruby Barnhill) ao ser sequestrada por um velhinho gigante de orelhas ainda maiores ainda (Mark Rylance), a moral da história é que vale a pena mentir se você conseguir apelar para o uso da força estatal em vez de encarar seus próprios problemas. E quando se fala de força estatal, sempre haverá algum chefe de estado doido para invadir novas terras (mesmo que seja a Terra dos Gigantes).

Se como história, o filme se limita a descrever aquela terra, aquele velhinho, os gigantes bullies que o incomodam e como caçar e armazenar sonhos, como visual é muito interessante. Além de inserir elementos fantásticos na casa do Gigante Amigo, como uma cama que é um navio pirata, o próprio aspecto do gigante é notável. Ele lembra um gigante dos livros infantis, mas consegue ter expressões e movimentos extremamente humanos.

Além disso, a dublagem de Mark Rylance aqui desempenha um papel primordial para a humanização da criatura. Seu falar errado denota sua inocência, mas conseguir escrever denota sua vontade de melhorar. Ele consegue transformar um ser gigantesco em uma criatura doce e vulnerável, enquanto Ruby Barnhill transforma sua Sofia em um doce de criança, mas muito longe de ser a protagonista (o que é um dos problemas do longa).

(Aliás, graças aos espectadores adultos preguiçosos – nunca culpo as crianças, que são sempre mais ativas – haverá toneladas de versões dubladas em um português capenga nas salas de cinema, enquanto apenas uma minoria se beneficiará da dublagem de Rylance).

Agora, se usar a força estatal para invadir uma terra estrangeira por conta de um risco que nunca é sequer citado pelos gigantes malvados e alterar o destino daquelas criaturas simplesmente porque são “selvagens” me parece alegórico demais para não ter relação com a atual situação sócio-política da Europa e seus xenofóbicos de plantão. A meu ver, o Sr. Spielberg percebeu que existem outras maneiras de convencer o público adulto de seus ideais: filmes de criança. O inesperado, no caso, é ver o autor de A Lista De Schilder sugerir uma segregação cultural tão disparatada quanto essa.

★★★☆☆ The BFG. UK, 2016. Direction: Steven Spielberg. Script: Melissa Mathison. Roald Dahl. Cast: Mark Rylance. Ruby Barnhill. Penelope Wilton. Jemaine Clement. Rebecca Hall. Rafe Spall. Bill Hader. Ólafur Darri Ólafsson. Adam Godley. Edition: Michael Kahn. Cinematography: Janusz Kaminski. Soundtrack: John Williams. Runtime: 117. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Adventure. Category: movies

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