O Castelo no Céu

Assistindo a O Castelo no Céu percebi uma característica do diretor Hayao Miyazaki (A Viagem de Chihiro) talvez pouco reconhecida entre seus fãs: ele é extremamente habilidoso em sequências de ação. Isso pode-se constatar facilmente em uma cena envolvendo uma perseguição de trem, tanques, carros e transportes voadores e que dura pouco menos que dez minutos, mas acelera as batidas do coração a cada novo desdobramento. Isso ocorre principalmente porque nos preocupamos profundamente com os personagens envolvidos, o que nos leva a uma segunda característica vital de Miyazaki: ele sabe introduzir seus personagens.

A mesma versatilidade existe em Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar e até no mais lento Vidas ao Vento. Curiosamente esses dois longas emprestam muito das ideias de O Castelo no Céu, que por sua vez também se aproveitou muito de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos. Posteriormente várias ideias – principalmente as visuais – foram aproveitadas novamente em Porco Rosso - O Último Herói Romântico e em O Serviço de Entregas da Kiki. Como pode-se perceber, o universo dos estúdios Ghibli, de Miyazaki e sua equipe mantém diversas rimas, tal qual Disney em seus projetos (dadas as devidas proporções). Porém, não se engane: todas essas produções possuem sua assinatura peculiar, e portanto estão longe de ser uma velha fórmula reproduzida inúmeras vezes.

Em O Castelo no Céu, por exemplo, há uma discussão fascinante sobre ecologia. O mais fascinante, porém, é saber que a história se passa antes das grandes invenções espalhadoras de gás carbônico na atmosfera, mas onde a riqueza e o poder já são velhos conhecidos da gananciosa humanidade. Só a mente e os corações dos jovens Sheeta e Pazu conseguem desejar algo que não interfira no mundo onde vivem: apenas olhar novamente uma ilha que se ergue entre as nuvens, conhecida como lenda onde se escondem vários mistérios que são interpretados como riqueza e poder pelos homens.

Dessa forma, o governo e piratas, liderados por um rapaz misterioso e uma mãe obstinada nos mesmos moldes de Os Goonies, vão à caça dessa ilha de tesouros. Para isso precisam da jovem Sheeta, que possui a chave para a localização da ilha. Tudo é desvendado muito lentamente, de forma que estou soltando apenas alguns detalhes de uma aventura que se desdobra sem pressa e que consegue nos manter sempre atentos, principalmente graças à maravilhosa trilha sonora, que com razão toca muito alto nos momentos de maior grandiosidade. E não é à toa. Estamos presenciando proporções e criações tão incompreensíveis quanto os vistos em Avatar de James Cameron.

Caminhamos racionalmente com a câmera de Miyazaki e emocionalmente com a trilha de Joe Hisaishi (que já compôs coisas tão complexas quanto distintas quanto A Partida, Dolls e A Viagem de Chihiro) durante duas horas de puro êxtase narrativo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-12-24. O Castelo no Céu. Tenkû no shiro Rapyuta (Japan, 1986). Dirigido por Hayao Miyazaki. Escrito por Hayao Miyazaki. Com Anna Paquin, James Van Der Beek, Cloris Leachman, Mark Hamill, Richard Dysart, Jim Cummings, John Hostetter, Michael McShane, Mandy Patinkin. imdb