O Contador

O Contador é um filme que se divide em duas metades. A primeira metade é envolvente e possui uma forma de contar histórias de maneira inteligente, embora óbvia. A segunda metade se abstém em servir como catarse para os fãs de filmes de ação e Ben Affleck.

O curioso é que a ação, embora implícita na primeira metade, se torna muito mais eficiente por conhecermos melhor o protagonista, e o espectador “preenche as lacunas” com sua imaginação. Afinal de contas, a sequência do massacre inicial é tenso justamente por apenas ouvirmos os tiros e pessoas caindo, e vermos alguém adentrando o prédio onde ele acontece apenas por suas pernas e seu movimento cuidadoso ao subir as escadas e cruzar o corredor. Uma das melhores cenas de tensão do ano, por sinal.

Nesse sentido, a segunda metade, embora cheia de ação, é explicita e confusa, com exceção de uma sequência que se passa em uma fazenda (mais uma vez: eficiente por causa dos personagens, nunca pela ação em si). Aliás, a grande “revelação do filme” (que sequer é revelação de tão óbvio) encontra o seu pior momento para acontecer, embora seu desfecho seja bem-humorado (e descerebrado). Por isso, ao analisar o filme como um todo, cada vez faz mais sentido dividi-lo e encará-lo em inteligente enquanto se concentra em personagens e ação genérica quando vemos apenas socos e tiros burocráticos.

Até porque o grande esquema desmascarado pelo contador do título é tão vago e faz tão pouco sentido para o espectador médio que está aí só para mais uma vez colocar as grandes corporações como grandes vilãs. Só isso para justificar a pressão exercida por certo personagem para que um investidor pare de “vender a descoberto”. Deixa eu repetir pra ver se faz mais sentido: ele vem com uma arma e seus punhos e intimida um investidor para parar de vender a descoberto.

Por isso vamos nos concentrar na história de vida do grande personagem-chave destra trama: O Contador. Ele tem vários pseudônimo, a maioria derivada de famosos matemáticos. E entre Charles Babbage e George Boole, sempre Boole, lógico (ele foi o criador da lógica booleana). O heroi da trama é autista e teve uma infância difícil, mas aprendeu com o pai a se defender e criou uma vida à prova de bandidos e aproveitadores (incluindo o governo), pois ele trabalha para organizações criminosas para lavar seu dinheiro.

O que nos leva a uma questão relevante da trama: a priori ele não faz nada de errado. Lavar dinheiro é tão criminoso quanto sonegar impostos (ou seja: só é porque o governo diz que é). Dessa forma, ele acaba até ganhando a simpatia do policial que está para se aposentar (sim, eles usam esse clichê, embora de maneira funcional). Mesmo que este trabalhe para o Tesouro, há algo que parece fascinar o oficial Ray King (J.K. Simmons eficiente como sempre). É por isso que ele pede para alguém que manterá a operação de busca de identidade do sujeito em silêncio, a analista Marybeth Medina (uma desinteressante Cynthia Addai-Robinson).

E Ben Affleck ganha através da introdução de seu personagem pelo ótimo Seth Lee (que o vive na infância) o suporte necessário para que sua persona fechada, sempre desviando o olhar e com comentários secos e impessoais, ou observações pessoais extremamente mecânicas (“você está zangado”, fala ele para um cliente ao observar sua feição). Ainda assim, é um papel estereotipado, que só funciona graças aos movimentos de câmera do diretor Gavin O’Connor, que consegue tornar quase todo personagem interessante apenas deixando pouco tempo de tela para eles (embora haja momentos em que suas atuações sejam eficientes por mais tempo; notadamente quando o filme foge da ação para estudar seus personagens).

E se disse que quase todo o elenco parece eficiente, é porque a função da contadora Dana Cummings parece periférica demais para que ela sequer exista na trama. É como se o roteirista Bill Dubuque, que faz um ótimo desenvolvimento inicial, fosse obrigado a inserir um pretenso par romântico para Affleck porque sim. Dessa forma, ela é a menina que desconfia haver algo de errado com a contabilidade da gigante empresa Living Robotics (um nome nada sutil para um filme com um autista como protagonista), e é ela que irá correr perigo para que Affleck a salve (sabe lá deus por que alguém se preocuparia com ela).

Porém, nem tudo é medíocre. A direção de arte que cria o personagem de Affleck o torna um ser curioso em poucos segundos, apresentando sua precisão em abrir e fechar a garagem elétrica de sua casa (e um espaço milimetricamente planejado para seu carro), além de um espelho quadrado que enfoca apenas o que Christian Wolff precisa ver, ou até seus talheres na cozinha, limitados a um garfo, uma faca e uma colher, igualmente separados em sua gaveta. Além disso, o controle financeiro do sujeito é admirável. Só faltou ele ter alguns bitcoins salvos em diversas contas para se proteger caso tudo dê errado.

Visto de trás pra frente, O Contador é um excelente estudo de personagem e de quebra um estudo do seu tempo, elevando a posição dos autistas (e, em sua maioria, habilidosas com matemática e lógica) em pessoas-chave para uma sociedade próspera. Infelizmente, as cenas de ação não são lá aquelas coisas, e os closes, importantes no estudo de personagem, apenas atrapalham quando a câmera treme e os cortes aumentam. De toda forma, se você está mais interessado no drama e menos nos tiros, é uma boa pedida. Mesmo que você não seja fã de Ben Affleck.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-28 imdb