O Conto da Princesa Kaguya

Uma aventura narrada por traços que revelam o que mais importa em seus personagens: o “eu” interior, ou seja, as expressões que os tornam tão únicos quanto complexos. Porém, nunca simplificados, mesmo se tratando de um conto. Aliado a isso, uma música de poucos toques usada nos momentos exatos transforma a experiência em uma imersão completa na moral milenar oriental. Em suma: um desenho imperdível para adultos (e talvez assustador para crianças, mas ainda assim arriscaria levá-las…).

Contando a história da pequena Princesa Kaguya do filme, encontrada próximo a um bambu iluminado justamente por um cortador de bambu, o bebê mágico cresce rapidamente, e junto com ele acompanhamos os momentos mais interessantes do próprio crescimento humano. A felicidade completa está contida na primeira parte da história, onde Kaguya e seus amigos correm e se divertem juntos em um ambiente rural que exala natureza e contato do ser humano com sua essência animal.

Equilibrando com destreza suas metáforas a respeito de nossa vida e o quanto perdemos dessa essência durante o crescimento, a fase no palácio é comparativamente sombria e sem sentido, e é assim que o diretor Isao Takahata (do igualmente profundo Túmulo dos Vagalumes) quer que vejamos essa transição e pensemos se toda essa pomposidade em nossa sociedade realmente faz valer a pena o sacrifício. A época em que a história se passa apenas aguça essa visão, já que Kaguya, depois de oficializada princesa em uma grande festa, é alvo de uma dúzia de pretendentes que nunca a viram, mas que estão dispostos a se casar com ela unicamente para possui-la como um objeto.

A felicidade é o tema recorrente em O Conto da Princesa Kaguya, como vemos o seu pai constantemente pensando na melhor forma de tornar a filha feliz. Se para nós é óbvio como espectadores, a maior virtude do filme seria fazer-nos pensar a respeito de nossa própria vida.

Com um final deslumbrante que conta com cada segundo de música e movimento, a visão budista da partida não se torna religiosa justamente pela mensagem universal que ecoa em sua sequência. Um filme para ver e rever com o passar da idade. Parece longo, como a vida, mas passa em alguns segundos, como o crescimento de uma princesa.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-07-26 imdb