O Demônio das Onze Horas

Wanderley Caloni, May 17, 2019

Godard coloca em prática seu objetivo de destruir a linguagem cinematográfica porque é coisa de burguês, mas seu jeito mimado e francês de criticar o establishment vira um tiro pela culatra em filme chato que apenas enfatiza que crianças como ele devem ser mantidas longe da câmera.

A história é um homem que se casou com uma italiana rica (mas não liga pra ela) e decide fugir com a amante em uma versão pastelão dos filmes de ação dos anos 60. Eles brincam, correm, dizem coisas de esquerdinha como “não ligo pra dinheiro” e chegam à conclusão que esta é uma vida de merda não importa o que você faça.

Mas para chegar nesse nível nós espectadores somos obrigados a assistir às infantilidades de um cineasta sem controle. Não que seja sem aviso: a primeira cena do filme é de um homem lendo para sua filha um trecho de um livro sobre arte moderna. Ao saber disso o espectador poderia já fugir da sala. Correndo.

Esse nonsense do filme com roubos patéticos de carro ou golpes infantis em turistas americanos deveria ser engraçado. Talvez até seja se você for francês. Mas hoje é apenas um porre. Não há identificação com essas caricaturas que o filme promove. E a referência todo momento ao Vietnã é gratuita, pois não se liga a nenhuma parte da história.

O que no fundo Godard está fazendo é a sua teoria e versão do que deve ser feito no cinema: linguagem de guerrilha. A base para isso é que a linguagem que determina sua crítica. Então ele nos mostra como uma narrativa convencional é patética, com erros de lógica e continuidade dentro do controle narrativo. É um filme ruim porque o cineasta quer que assim o seja, para mostrar como a arte burguesa é de fato, mas para isso a fabrica desprovida do que a torna excelente: comunicação, onde coerência é fundamental.

No fundo a esquerda não consegue lutar contra o sistema, sendo suas tentativas de contra cultura enfadonhas. Eu sei, o objetivo é mostrar como cinema é enfadonho. Ou a vida burguesa. Mas e a vida aventureira do casal não é divertida? Acho que me perdi na tradução. Não importa, este Godard de 65 é tão irrelevante que filmes ruins feitos sem querer entram no mesmo patamar.

Imagens e créditos no IMDB.
O Demônio das Onze Horas ● Pierrot le fou. Por Jean-Luc Godard, com Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Graziella Galvani. ● Nota: 2/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-17. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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