O Desinformante!

Apr 15, 2015

Imagens

Esse filme começa com uma pequena mentira e termina em uma interminável cornucópia de detalhes sobre uma trama que teve inspiração em um caso real envolvendo a empresa Archer Daniels Midland na década de 90. Baseado no livro do jornalista Kurt Eichenwald, a história gira em torno do testemunho do vice-presidente da companhia, Mark Whitacre (Matt Damon), a partir de uma suspeita de extorsão comercial fabricada pelo próprio Mark para se livrar da culpa da queda na produção de milho causada por uma bactéria. Whitacre cresceu profissionalmente na área técnica, e todas as suas narrações em off envolvem curiosidades e reflexões a respeito da produção e comercialização de produtos consumidos pela população em geral cuja origem nunca é pesquisada a fundo.

O curioso é que, como havia dito, a história começa com essa mentira, que não nos é revelada como tal, mas facilmente deduzível pela situação. Depois que o FBI se envolveu e Mark ter confessado seu “crime”, as próximas mentiras envolvendo um sistema de cartel para controlar os preços montado entre os concorrentes do mundo todo começam cheirando mal, mas agora já não conseguimos mais distinguir fatos da imaginação fértil do loquaz Whitacre.

Matt Damon, aliás, aqui é 50% do filme, e sua capacidade de nos fazer sentir empatia pelo rapaz – embora sua idade não esteja muito compatível com seu cargo – ao mesmo tempo que vamos desvendando aos poucos sua mente doentia e suas estratégias para conseguir mentir por mais tempo é o grande trunfo do filme. Isso, e a capacidade do diretor Steven Soderbergh (Magic Mike) de juntar a excelente fotografia dele mesmo, que explora um mundo que lembra as décadas de 50 e 60 embora estejamos claramente em uma época mais atual (e a própria iluminação revela isso sutilmente quando se liberta do amarelo), e a trilha sonora, que esbanja um charme de uma época que também não é vivida no filme e que consegue também criar um clima mais ameno para fraudes que se acumulam sobre o currículo do sujeito.

Quando até a produção de um filme se esforça para manter uma época que no fundo está errada, é porque as amarras do realismo de uma história de “não-ficção” estão os mais frouxas possíveis, e nesse caso a sensação é ótima. Porém, nada disso seria possível se o roteiro adaptado de Scott Z. Burns não conseguisse captar a essência do seu protagonista e se perdesse em detalhes minuciosos, mas complexos demais para qualquer linha de raciocínio que fosse tentada. O que acontece no terceiro ato, onde os melhores momentos se revelam, é uma perseguição mental em torno de cada vez mais sessões com advogados e investigações do FBI. Nesse sentido, o momento-chave é a conversa entre Mark e o agente Brian Shepard (Scott Bakula) a respeito de um atestado médico, fazendo ecos com outro embate mental semelhante: O Espião que Sabia Demais. Não importam mais os detalhes, mas como eles estão sendo acumulados em uma vida cada vez mais problemática.

Por fim, o humor controverso de Soderbergh consegue ainda amarrar as pontas sem soar moralista ou dramático. Não queremos que seja perdida a inocência de Mark, mas ao mesmo tempo gostaríamos que ele reconhecesse seus erros. É difícil quando olhamos para ele e o que vemos é uma versão anos 60 do assustador Ripley.

Wanderley Caloni, 2015-04-15. O Desinformante!. The Informant! (USA, 2009). Dirigido por Steven Soderbergh. Escrito por Scott Z. Burns, Kurt Eichenwald. Com Matt Damon, Lucas McHugh Carroll, Eddie Jemison, Rusty Schwimmer, Craig Ricci Shaynak, Tom Papa, Rick Overton, Melanie Lynskey, Thomas F. Wilson. IMDB.