O Destino de uma Nação

Esta é a versão cinematográfica de um momento na história da Inglaterra que talvez lendo os livros não tenha tanto apelo emocional quanto um Gary Oldman incorporando totalmente o tom feroz, bonachão e icônico de Sir Winston Churchill, que abraça na marra o espírito inglês de sobrevivência (ou insanidade). Se isso não for patriotismo, nada mais será.

Centrado nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial (apenas se você pensar na Europa), quando o primeiro-ministro debilitado Neville Chamberlain renuncia e em seu lugar a figura mais inóspita de Churchill surge, Hitler e sua Alemanha nazista marcham em uníssono derrubando países em um piscar de olhos. Tomando conta da França e encurralando o exército inglês aliado na minúscula costa de Dunkirk, a até então silenciosa ilha precisa dizer ao mundo o que irá fazer frente a ameaça de um novo império surgindo.

E essa acaba sendo, como é de praxe, uma pergunta complexa dentro do Parlamento inglês. Tendo perdido a confiança pelas políticas desastrosas de batalhas do passado, Churchill é a figura britânica que mais se assemelha a um bode expiatório inglês, colocado como única opção viável no momento para tentar manter a unidade política do governo. E percebemos como isso deve ter sido difícil para ele, pois além dos embates políticos ele ainda precisa manter um orgulho inglês decadente frente a uma multidão de ovelhas temerosas e egoístas. O “bom senso” está a ditar as últimas decisões de uma Inglaterra ainda livre.

Esse pelo menos é o tom do filme dirigido por Joe Wright (Orgulho & Preconceito) e escrito por Anthony McCarten (do regular A Teoria de Tudo), que explora esses momentos históricos em uma sombria e triste Londres. Sempre se mantendo em uma luz fraca, que faz parecer que os britânicos estão nesse momento ainda na penumbra a se anunciar (maior verdade não há), Darkest Hour mostra esses momentos com a solenidade que o momento histórico merece e dificilmente nos coloca na intimidade dessas pessoas, sempre privilegiando a cartilha formal dos acontecimentos.

Há apenas dois, ou três, brilhantes momentos, no filme todo. Em um deles vemos os três arquitetos do poder, primeiro-ministro atual, anterior e o que seria, planejando a negociação de paz. Nele vemos toda a complexidade inerente a uma decisão dessas que impacta a vida de milhões que essas pressoas precisam enfrentar em tempo recorde. Na cena imediatamente seguinte vemos Churchill encurralado no banheiro, ligando para o presidente americano e implorando por uma frota. O enquadramento dessa cena é belíssimo; vemos seu isolamento demonstrado pelo cubículo isolado de tudo e de todos, com o telefone e um alarme de incêndio, ambos em seus ombros, fora a tomada onde vemos o gigantesco rosto do primeiro-ministro se tornar grande, mas pequeno ao mesmo tempo, olhando levemente para baixo.

E há o momento catarse, que se passa em um metrô, e que vocês precisam ver e sentir com seus próprios olhos e coração. Não é um momento gratuito, contudo. Ele é tão necessário quanto os momentos intimistas de Dunkirk, que Christopher Nolan soube tão bem empregar para daí subir para o alto escalão da pátria. Aqui é feito o caminho contrário, e é rápido, mas vale cada segundo. Quem dera os países tivessem líderes como os que são pintados nesse filme.

Gary Oldman, como sempre, é um camaleão. Aqui ele tem uma “pequena” ajuda da maquiagem, o que o torna muito próximo da figura clássica de Churchill. Mas nada fica entre ele e o espectador quando ele emprega não apenas um sotaque engraçado e peculiar, mas quando ele usa de seus maneirismos com propriedade, como o uso das sobrancelhas e o jeito curioso de andar. Oldman se parece cada vez menos com o ator e mais com o primeiro-ministro conforme a história avança. Talvez ele se tenha se esquecido em um momento ou dois quem é, e para a imensa virtude deste longa revemos Winston ressucitado.

A trilha sonora de Dario Marianelli não é primorosa, apenas adequada na maioria das vezes, mas auxilia a aliviar um pouco a pesada fotografia de Bruno Delbonnel, que exagera nas sombras, nas formas e nas meia-luzes que permeiam toda a trama. Até quando há cenas externa o que mais vemos são sombras de trincheiras e sombras de aviões sobrevoando uma área. Há uma transição interessante entre essas trincheiras e o rosto de um soldado morto jogado provavelmente nas areias de Dunkirk, mas esse efeito estético é gratuito e em nada favorece a história.

Que é uma história adulta. Este não é um filme de guerra, mas um filme de política, que é a guerra com etiqueta. Até o Parlamento está mais educado do que de costume (A Dama de Ferro, 2011), e olha que estão à beira de tensos momentos. Darkest Hour não possui a força ultra-realista de Dunkirk, mas permite enxergarmos a parte não-vista do longa de Nolan. Uma dupla sessão de respeito, com ambos indicados ao Oscar desse ano.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2018-02-26. O Destino de uma Nação. imdb