O Diabo Veste Prada

2017/10/21

Meryl Streep em um dos melhores papéis de sua carreira (o que não é pouca coisa). Olhe sua entonação entediada, sem levantar a voz, sem sequer olhar para os olhos de seus funcionários. Olhe como enumera de maneira apática e precisa de onde veio o azul que sua nova secretária está usando. O azul dela tem um nome específico, a secretária não se liga pra moda, e Streep simplesmente a coloca em seu lugar.

“That’s all.”

O brilhantismo da escalação de Streep é que o roteiro nunca a coloca em posição de protagonismo, o que poderia ser perigoso para a magnética atriz, que rouba os holofotes de Amy Adams em Julie & Julia. Aqui cada participação de Streep é magnética na medida certa, pois ela se resume a interações com a personagem de Anne Hathaway.

Dessa forma Hathaway tem a oportunidade de ouro de construir um personagem convincente graças à sua vilã. Ela é a gata borralheira (aqui jornalista idealista) que precisa do emprego para se manter, e aos poucos simpatiza pelo mundo da moda, ou pelo menos entende as motivações de sua chefe, a megera odiada e aclamada e que todos possuem um exemplo em suas áreas de atuação. Afinal de contas, este filme é baseado em um livro homônimo escrito por um funcionário, descontente ou não (essa parte da minha crítica é ficcional). De qualquer forma a mensagem faz sentido: chefes rudes e implacáveis é uma regra de empresas bem-sucedidas; não exceção.

Porque o fato é: se você tem mais de trinta anos e já passou pela fase humanista ao extremo, da em que você vive com unicórnios, sabe que a vida real funciona assim. Os mais obstinados com excelência prevalecerão, pelo menos enquanto forem úteis para o sistema. O sistema não tem coração, mas tem paixão. Ele não ama as pessoas que fazem parte dele, mas adora como as roupas, os adornos e as cores combinam com a construção de identidade dessas mesmas pessoas. Fútil? Me fale mais como a maioria das mentes humanas é tão fascinante. Spoiler: não é.

Então se a beleza interior é pura invenção para que ninguém saia se matando por aí, o universo da moda gira em torno de sacrifícios, de fazer o que se odeia, de ser uma masoquista disfarçada de sádica. E essa posição, essa condição, nem a editora da revista mais famosa de moda de Nova Iorque consegue fugir.

Afinal, ela é capaz de manter um jantar após um evento traumático e escolher uma pessoa que detesta para promoção, se isso for relevante para seus planos. E seus planos giram em torno de continuar sendo a mesma para sempre.

No extremo oposto, a secretária original, do filme, uma das mil garotas que se matariam para estar no seu lugar, faz um trabalho em que é ignorada. Ela é a outra ponta nessa equação, mas se trata da mesma fórmula. Seres humanos glorificam seres humanos acima deles para que o ser humano alfa enfim faça uma reverência, e um sacrifício, para o deus moda. A continuação temática do que estou falando está em um filme mais recente, Demônio de Neon.

Com uma trilha sonora passada, ainda que divertida, com músicas da moda, e os cortes com carros passando enquanto vemos nossa heroína com diferentes conjuntos de roupas praticamente estonteantes, Diabo Veste Prada usa sua linguagem visual de maneira visceral, o que o torna ainda mais convincente em sua mensagem sobre futilidades.

Além disso, ele ainda é um filme adulto de Hollywood, onde namorados podem se separar e na mesma semana fazer sexo com outras pessoas (e sem arrependimentos mortais). Mas ao mesmo tempo a ingênua mas competente secretária começa a notar como está se parecendo com sua chefe, no momento em que ela se toca no que vai se tornar. Este, portanto, não é um filme de mudança de personagem, mas de aprendizado. E por mais piegas que pareça, aprender quem nós somos ainda é um desafio à altura. E Diabo Veste Prada o faz de salto alto, para o bem e para o mal.

Isso é tudo.

★★★★★ The Devil Wears Prada. USA, 2006. Direction: David Frankel. Script: Aline Brosh McKenna. Lauren Weisberger. Cast: Meryl Streep (Miranda Priestly). Anne Hathaway (Andy Sachs). Emily Blunt (Emily). Stanley Tucci (Nigel). Simon Baker (Christian Thompson). Adrian Grenier (Nate). Tracie Thoms (Lily). Rich Sommer (Doug). Daniel Sunjata (James Holt). Edition: Mark Livolsi. Cinematography: Florian Ballhaus. Soundtrack: Theodore Shapiro. Runtime: 109. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Comedy. Release: 22 September 2006. Category: movies Tags: paulocoelho

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