O Ditador

Sep 6, 2012

Imagens

Sacha Baron Cohen possui o melhor de duas comédias que particularmente gosto muito: a com estilo pastelão e a com piadas ácidas, de um humor negro que só é permitido pelas cenas absurdas que sugerem que devemos suprimir nosso sistema moral por cerca de uma hora e meia.

O que, se tratando do ator de Borat, não é algo tão difícil de se deduzir. Com sua própria TV narrando a biografia do ditador sanguinário Aladeen — e o nome é um toque tão genial quanto o bigode de Chaplin em Grande Ditador — vemos o protagonista ainda bebê exibindo uma gigantesca barba e um pelo tão espesso que não é possível ver suas genitais. Se isso não for uma dica do que vem pela frente, não imagino o que seja.

Porém, comédia é um dos gêneros mais subjetivos. Mesmo uma boa comédia pode não cair no agrado da maioria por conter piadas que ofendem sua moral, que resiste apesar das cenas que berram aos olhos que o que estamos vendo é apenas um exercício de absurdo, e tudo é permitido porque ninguém deve levar a sério aquelas bobagens. Bobagens essas que divertem apenas os que entendem a mensagem, que resolveram abrir um pouco a mente e degustar o que é uma comédia original, livre das repetitivas e enfadonhas séries de pseudo-paródias. E entender que, por mais absurdo que sejam as situações que Aladeen encontre pela frente ao visitar a inimiga Nova Iorque, é apenas um pano de fundo para uma discussão um pouco mais profunda sobre as características de um regime político, seja dito democrático (“afinal de contas, a China também é uma democracia”) ou ditatorial.

Além de uma comédia física e que apele às vezes para o escatológico e o sexual, há por trás das ideias de O Ditador verdadeiras pérolas de pensamento sobre o tema, como a criativa subversão das palavras perante o magnífico general-comandante, ao ponto de antônimos como positivo e negativo virarem apenas uma palavra: Aladeen. Ou, mais um exemplo, o costume de mandar executar qualquer pessoa ou animal que o desagrade, mesmo que isso seja pegar o brinquedo da caixa de cereal.

Porém, não é só a ditadura que é vítima de escracho. Estamos na América a maior parte do tempo, e a democracia é, sim, alvo de inúmeras piadas que se engrandecem pelo ridículo. Note, por exemplo, como a união de todas os estereótipos do que seria um ambiente livre de preconceitos e amarras políticas, como é a loja dirigida pela simpática e exageradamente ativista Zoey (Anna Faris), onde até seu nome é um clichê, consegue extrair graça do que seria se tudo que representa a liberdade fosse concentrado em doses extremas.

Não que o filme seja pró-Estado, muito pelo contrário. Melhor do que isso, as situações na maioria das vezes fazem pensar e refletir como alguns conceitos tão enraizados em nossa cabeça, como a visão dos EUA como o símbolo mágico de liberdade, consegue aos poucos ir se desfazendo pela força do ridículo e chegar ao ponto máximo de um discurso irretocável no terceiro ato, digno de extrair lágrimas no meio dos risos.

É esse tipo de detalhe que consegue fazer valer a pena ignorar as bobagens e cenas descartáveis do filme. E é esse tipo de comédia que faz valer a pena sempre revisitar os personagens estereotipados que Cohen consegue como ninguém apresentar em seu pequeno universo.

Wanderley Caloni, 2012-09-06. O Ditador. The Dictator (USA, 2012). Dirigido por Larry Charles. Escrito por Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel, Jeff Schaffer. Com Sacha Baron Cohen, Sayed Badreya, Rocky Citron, Liam Campora, Aasif Mandvi, Rizwan Manji, Rick Chambers, Elsayed Mohamed, Adeel Akhtar. IMDB.