O Doador de Memórias
Wanderley Caloni, 2017-04-01

A ideia mais interessante por trás deste filme é usar a analogia de cores para exemplificar por que uma vida em uma sociedade igualitária é como uma vida preto e branca fosca, enquanto uma vida desigual, cheio das nuanças, dores e prazeres dos seres humanos “de verdade” é uma vida cheia de cores e luz. Infelizmente, essa analogia não apenas está errada como é mal empregada no próprio filme, e nos tenta fazer acreditar que nosso conhecimento sobre cores vem das nossas memórias (como se bebês não soubessem o que são cores ou herdassem memórias de seus pais). E isso é apenas a ponta do iceberg em um filme que tenta criar uma alegoria ambiciosa demais a respeito de uma distopia que mistura de maneira fragilizada Admirável Mundo Novo, THX e até “Brazil: O Filme”. Bom, não é sempre que se pode bancar Aldous Huxley e não levar na cara por sua petulância.

A história é narrada e explicada por todos os personagens a todo momento. Até o personagem interpretado por Jeff Bridges consegue tornar Jeff Bridges chato e monótono. Se trata de um mundo livre de conflitos, onde todos são iguais, blá blá blá, e para que isso aconteça há doutrinamento, remédios, regras de convívio que são ensinados do nascimento até a morte, e a santa ignorância. Apenas uns poucos selecionados (criadores desse mundo?), o anciãos, possuem a chave do conhecimento: livros e memórias. E quando digo memórias digo literalmente. São momentos vividos por outras pessoas passado de geração em geração por um mecanismo não-explicado, e se resumem naqueles vídeos que a família compartilha nas redes sociais. Claro, há também memórias que lembram o lado negro da humanidade: guerras, extermínio de animais pelo lucro e, junto deles, a sensação de que existe dor, mas também prazer.

Essa dualidade de emoções e as memórias passadas vai sendo explicada e passada de um ancião (Bridges) para um garoto que não encontrou sua vocação (o personagem de Brenton Thwaites, Jonas), mas possui as quatro virtudes necessárias para receber memórias (já esqueci quais são; não interessa, pois não vimos nada disso no garoto). O antigo recebedor de memórias era a filha de Jeff Bridges, e aconteceu algo de ruim com a garota. Em um mundo onde os pais adotam seus filhos faz pensar por que Bridges pode ter uma filha, o que faz-nos pensar que toda essa loucura de mundo igualitário só existe dos anciões para baixo. Enfim, sabemos que uma utopia só consegue ser construída se existe alguém a controlando.

A melhor fala do filme está em um diálogo entre Bridges e Meryl Streep (ah, ela está no filme; é a anciã-mestra ou algo que o valha). Quando questionada se esse controle é realmente o melhor para a humanidade, Streep tem a voz da razão quando diz que a maioria das pessoas são fracas e, quando dadas as opções para elas escolherem, elas sempre escolhem errado (os liberais americanos que o digam, agora que as últimas eleições pelos lados de lá elegeram o conservador republicano Donald Trump). Ironicamente, a própria Streep na vida real faz discursos a respeito de como é errado as pessoas pensarem diferente dela.

No entanto, este é um filme de ideias prontas, que não estão aberta a discussão. Assim como no mundinho do filme. E as atuações estão apenas repetindo o que seus personagens deveriam falar. E os acontecimentos estão apenas repetindo o que todos os filmes sobre esse tema já fizeram. Ou seja, um filme tão insosso que dá até pena de chamá-lo de ficção científica ou algo que o valha.

★★★☆☆ The Giver. South Africa. 2014. Direção: Phillip Noyce. Roteiro: Michael Mitnick, Robert B. Weide, Lois Lowry. Elenco: Jeff Bridges (The Giver), Meryl Streep (Chief Elder), Brenton Thwaites (Jonas), Alexander Skarsgård (Father), Katie Holmes (Mother), Odeya Rush (Fiona), Cameron Monaghan (Asher), Taylor Swift (Rosemary), Emma Tremblay (Lilly). Edição: Barry Alexander Brown. Fotografia: Ross Emery. Trilha Sonora: Marco Beltrami. Duração: 97. Aspecto: 2.35 : 1. Drama. Estreia no Brasil: 11 September 2014. #netflix