O Duplo

2017/03/26

O Duplo é uma viagem moderna, animesca, exagerada, utópica e livre de interpretações do livro homônimo de Fyodor Dostoevsky. Apresentando uma estética rica e impecável, o diretor Richard Ayoade adaptou o conteúdo do romance do autor russo com a ajuda de Avi Korine e entregaram um resultado além das expectativas de alguém poderia pensar de um filme protagonizado por Jesse Eisenberg como um herói tragicômico. Se trata de uma premissa simples: e se seu pior inimigo fosse você mesmo, mas em uma versão que todos reconheçam como um ser humano completo – ainda que imoral – e que você seja um mero espectador do sucesso que você poderia ser se pudesse, paradoxalmente, colocar seu próprio eu de lado, deixando de atrapalhar sua existência.

O impressionante é que Eisenberg consegue fazer tanto Simon James quanto seu sócia, James Simon, de uma maneira inquietante. Se como Simon chega a dar desespero a introspecção e o senso de invisibilidade do rapaz, como James é sua sombra que parece tomar conta. E a sua sombra, como vemos no filme, é uma representação fidedigna de seu personagem, pois ela passeia pelos muitos cantos claustrofóbicos dos cenários idealizados pela fotografia de Erik Wilson, cheio de sombra e drenados de cor.

Em um ambiente que poderia lembrar 1984 (o filme), Brazil ou qualquer desses futuros distópicos onde a esperança foi aniquilada por corporações sem alma, o suicídio é algo comum. As pessoas deixam de existir e cometem suicídio ou comentem suicídio para deixar de existir nesse mundo? Para Simon, o único motivo dele viver é sua vizinha do prédio à frente, a doce, jovem, bela e loira Hannah, interpretada por Mia Wasikowska como a devida vadia, e não como a deusa imaginada por Simon.

O ambiente também sofre várias influências do anime japonês, seja pela trilha sonora estilizada de Andrew Hewitt, que investe em canções cantadas em japonês, ou pelo exagero dos enquadramentos de Richard Ayoade, que usa um solitário vagão para mover seus personagens de e para o trabalho.

E que trabalho. Não sabemos o que é feito (como de costume em futuros distópicos), mas sabemos que as pessoas ficam com os cabelos brancos por lá. Se trata de um destino triste e solitário para Simon, cuja única felicidade é burlar um regulamento e imprimir apenas uma cópia na impressora para ir para o andar onde trabalha Hannah e pedir mais uma cópia. A assistente de Hannah lembra a megera de Expresso do Amanhã, assim como alguma outra megera de 1984.

No entanto, talvez o trabalho mais sofisticado do filme seja seu roteiro. Bem estruturado em todas suas partes, não deixando detalhes existirem a esmo (incluindo seu desfecho genial), a adaptação de Ayoade/Korine não deixa margem a dúvidas sobre o que está acontecendo, mas apenas o porquê. Mas ele também não torna as coisas fáceis para o espectador médio, que precisa entrar a fundo no tema para entender o que está acontecendo e não se importar tanto em um porquê bobo que irá estragar a festa. O importante na história não é como é possível existir um sócia e as pessoas não perceberem (até porque, em uma cena do hospital, vemos que isso é possível de acontecer com qualquer pessoa). Essa não é a pegada semi-realista de O Homem Duplicado, mas a viagem filosófica por trás do que tudo isso significa para o homem comum.

E é uma viagem sensorial, também. Exagerada quase além da conta. No entanto, não é necessário que seja assim, para entendermos que este é um assunto sério, seríssimo, mais do que uma simples brincadeira? O humor se encontra a todo momento nesse drama, mas vai se tornando cada vez mais “dark” a cada passo. Como é possível achar engraçado um destino tão desesperador?

★★★★★ Título original: The Double. País de origem: UK. Ano 2013. Direção: Richard Ayoade. Roteiro: Fyodor Dostoevsky. Richard Ayoade. Avi Korine. Elenco: Jesse Eisenberg (Simon / James). Mia Wasikowska (Hannah). Wallace Shawn (Mr Papadopoulos). Yasmin Paige (Melanie). Noah Taylor (Harris). James Fox (The Colonel). Cathy Moriarty (Kiki). Phyllis Somerville (Simon's Mother). Gabrielle Downey (Strange Woman). Edição: Chris Dickens. Nick Fenton. Fotografia: Erik Wilson. Trilha Sonora: Andrew Hewitt. Duração: 93. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Comedy. Estreia no Brasil: 26 February 2015. Tags: netflix

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