O Espetacular Homem-Aranha 2 A Ameaça de Electro

May 6, 2014

Imagens

O Espetacular Homem-Aranha, como é chamada no Brasil essa nova franquia da Sony em torno do herói de teias, não poderia ser mais “espetacular” em sua segunda aparição. Aliás, é tão “espetacular” no sentido da palavra que os habitantes de Nova Iorque já estão habituados a se apinharem educadamente atrás das quase presentes barreiras de metal colocadas estrategicamente em torno de mais um embate entre o Aranha e mais um dos seus arqui-inimigos. Eles aplaudem, festejam, comem pipoca. Nós também. Tudo é um show pirotecnicamente planejado para fornecer ação, humor, suspense, drama e comédia (ah, e romance) em um pacote de quase duas horas e meia de duração. São tantos gêneros diferentes quanto inimigos na telona, e assim como a presença de um número excessivo de personagens icônicos enfraquece cada um deles — até por praticamente não terem qualquer relação uns com os outros —, a presença de uma dramédia romântica com ação desenfreada parece não querer dizer muita coisa de nenhum gênero específico. Ao espectador e aos nova-iorquinos as instruções são simples: apenas abrace o lado do filme que lhe agradar mais e aguarde pelo seus breves momentos. Enquanto ele não chega, aprecia uma pipoca e aplauda atrás dos óculos 3D uma performance tão grandiosa quanto um Cirque du Soleil em videotape. Assim como o famoso circo que circunda o planeta para apresentar seu espetáculo para uma plateia que sabe que irá encontrar acrobacias treinadas por anos em um palco onde está tudo sob controle, “Amazing Spider Man” é um filme que tem tudo sob controle: os fãs, os amantes de efeitos visuais, os adoradores de pipoca. Tudo condicionado para fazer… não, obrigar que você goste do grande show.

A não ser quando você não gosta.

Mas não me levem a mal. Eu também tive meus breves momentos neste (bem) longa metragem em que me diverti, me empolguei, e até refleti a respeito da característica de um ou outro persona. Porém, após os créditos finais (e após a breve cena-teaser-comercial de “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”), a impressão que fica é de que esses breves momentos não pagam toda a opereta.

Pra começar, a presença de Electro como inimigo principal incomoda não pela interpretação bem-intencionada de Jamie Foxx (Django Livre), mas do roteiro escrito a catorze mãos e que mesmo assim parece contornar o super-herói com sombras de outros. E não estou falando apenas da trilogia original de Sam Raimi, mas também de filmes com décadas de história, como Superman, de onde parte da trilha sonora equivocada — composta a seis mãos, incluindo Hans Zimmer — se inspira para tentar compor um tema para o herói e o toca incessantemente. Fora isso, voltando a Foxx, seu personagem é simpaticamente ingênuo e atribulado, demonstra ter raiva por viver sendo atropelado por pessoas (quem nunca) e não tem culpa de nada, mas precisa ser detido, e por agora ser um “monstro”, poderá ser destruído sem nenhum pingo de compaixão, um ato que — impossível comparar — nunca a trilogia original ousou tomar. Aparentemente, efeitos visuais não servem apenas para impressionar, mas para despersonalizar qualquer ser humano que lhe convier.

Aliás, será que é esse mesmo o tom esperado para Max Dillon, ou como ele mesmo se auto-denominou, “Electro”? (Pensei que a mania de dar nomes bizarros já tinha passado). Se Foxx pode ter sido aqui desperdiçado, o mesmo pode-se dizer do herdeiro da Corporação Osborn — que aqui, é claro, é quase demonizada por ser… uma corporação — Harry Osborn, composto aqui pelo talentoso Dane DeHaan (Poder Sem Limites, O Lugar Onde Tudo Termina) e que faz um par impressionante com a atuação de Willem Dafoe no original, mais do que o próprio James Franco, pois ele até dispensa o uso de máscara. No entanto, seu passado, seu presente e até seu futuro são menosprezados pelo relapso roteiro, que o cita au passant e cujas intenções se resumem em sobreviver a uma doença geneticamente degenerativa cuja vítima mais recente foi seu ausente pai, que sequer fez parte da trama principal.

Todos têm um motivo para destruir Homem Aranha — até seu “melhor amigo” — mas ninguém conhece a simpatia de pessoa que é o nerd boa-pinta Peter Parker, exceto sua tia e sua namorada Gwen Stacy. Aqui Andrew Garfield e Emma Stone merecem créditos por melhorarem em muito a atuação do par romântico, talvez já prevendo as atribulações futuras. Porém, uma das maneiras empregadas pelo casal de atores em determinado momento para atingir esse efeito foi quase copiar descaradamente as caras, bocas e trejeitos de Tobey Maguire e Kirsten Dust, respectivamente Peter Parker e Mary Jane em “Homem Aranha”, prova do carisma gerado pela obra original e pela incapacidade quase que sintomática que o remake tem de tomar o seu lugar. No entanto, justiça seja feita: Andrew Garfiel melhorou em algumas gerações a atuação de Maguire, que não é um grande ator. Porém, até que ponto uma atuação é relevante em papéis que a pessoa quase sempre depende apenas da voz, pois sua visão está embaçada por uma máscara digital?

Essas reflexões me pegaram pelo caminho da trama em vários momentos do filme, pois ele é monótono, tentando desenvolver seus personagens de maneira burocrática e automática (“eu prometi ficar longe”, “você me traiu”, “você é meu garoto”, “eu sou seu melhor amigo”). Isso funciona tão mal, aliás, que até a morte de um personagem importante no terceiro ato ganha a cena pela sua beleza plástica, cartunesca, e o uso dos ângulos exatos para configurar a inspiração nos quadrinhos e… mas o que eu estou falando? Estamos falando de um ser humano que morreu (ainda que fictício), e a única coisa que conseguimos prestar atenção é na beleza da cena?

Poderia elencar, então, a cena desse “impacto” emocional (Take 14154) como o resumo dessa obra de 144 minutos: visualmente belíssima, espiritualmente vazia. Até Tobey Maguire, com sua falta de jeito, conseguia ter mais coração. Se bem que, é como dizem: o show tem que continuar.

Wanderley Caloni, 2014-05-06. O Espetacular Homem-Aranha 2 A Ameaça de Electro. The Amazing Spider-Man 2 (USA, 2014). Dirigido por Marc Webb. Escrito por Alex Kurtzman, Roberto Orci, Jeff Pinkner, Alex Kurtzman, Roberto Orci, Jeff Pinkner, James Vanderbilt, Stan Lee, Steve Ditko. Com Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Dane DeHaan, Colm Feore, Felicity Jones, Paul Giamatti, Sally Field, Embeth Davidtz. IMDB.