O Exorcismo de Emily Rose

Se O Exorcista (William Friedkin, 1973) tivesse sido produzido nessa década perderia praticamente metade do seu brilho sobrenatural. Um filme faz muito mais sentido em sua época (o que não quer dizer que não possa ser apreciado pelas futuras gerações) — e lá no passado as crenças e religiões ainda eram um ponto alto, sobretudo a cristã. Os últimos escândalos da igreja católica com certeza ajudaram a minar toda essa fé que leva ao medo, ao sacrifício e à dor. E o medo, desnecessário dizer, é o que move o terror.

Já em O Exorcismo de Emily Rose se adapta à sua época cínica e cética apresentando o ritual já em uma sala de tribunal. A menina supostamente possuída (Jennifer Carpenter, da série Dexter), já sabemos, não sobreviveu ao ritual, e o padre (Tom Wilkinson, propositadamente ausente) agora está sendo processado por negligência. De maneira significativa, para sua defesa está a advogada Erin Bruner (Laura Linney, correta), que ficou conhecida por conseguir inocentar um famoso criminoso, mas que, acima de tudo para o filme, é agnóstica. Igualmente significativo é a escalação do seu promotor (interpretado de maneira atribulada por Campbell Scott), que é católico, mas que aqui faz o papel de, desculpas ao trocadilho, advogado do diabo.

O jogo é montado em cima de um fascinante jogo de interpretações sobre o que poderia ter ocorrido do ponto de vista sobrenatural e do ponto de vista científico (ou simplesmente bom senso), onde vemos frequentemente ambas as versões representadas visualmente. Isso não tira de forma alguma o medo de sequências arrebatadoras justamente porque escolheram não mostrar muito (o velho segredo que vários filmes do gênero se esquecem e esculhambam tudo). É um filme que mantém seu ritmo de idas e vindas nos acontecimentos sem vigor, mas didático. Quase uma dissecação do que seria o Exorcista da década de 70.

Ainda que brincando de fatos reais com uma liberdade poética ilimitada (baseada na história de Anneliese Michel) o filme divertidamente cria coincidências em torno da advogada agnóstica que poderiam muito bem ser explicadas por senso comum, mas que na atmosfera do julgamento tomam um ar completamente diferente. Curiosamente é quase como que apontasse ao espectador como os “fatos” podem ganhar contornos sobrenaturais, bastando um pouco de imaginação.

Talvez o que decepcione mais o filme seja sua conclusão que quer agradar ambos os lados. Se, por um lado, não restam dúvidas quanto ao que realmente aconteceu — embora, ressalta-se várias vezes, na ausência de provas — há ainda a chama da fé, essa estranha fé católica pela dor e pelo sofrimento que é o apelativo do discurso final da advogada, e que soa extremamente infantil se comparado com a visão sensata e humana de Jodie Foster em Contato a respeito da sua própria experiência.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-03-08 imdb