O Exorcista

Jan 18, 2018

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O Exorcista. Apesar de cercado de lendas e maldições em sua produção, podemos dizer que o resultado é um pequeno milagre. Se trata de um filme de terror que se constrói aos poucos em cima de um drama e personagens que são bem formados, e não jogados como os terrores de hoje em dia. Ao final, temos pouco mais que 15 minutos de cenas horripilantes. Mas essas cenas horripilantes só são assustadoras porque possuem todo um pano de fundo desta história. É preciso ver para crer o que o Cinema conseguiu produzir mesmo com o uso de bonecas, vômitos voadores e uma criança descendo escadas da maneira mais não-convencional possível.

A história foi escrita em romance e em roteiro por William Peter Blatty (falecido ano passado) e segue no filme uma lógica muito além de qualquer filme de terror já feito. Começamos a história acompanhando o experiente Padre Merrin (Max von Sydow) em escavações no Oriente Médio. Ele parece preocupado e cansado quando encontra mais um amuleto demoníaco. Do topo de um monte observa uma estátua grande de um demônio, cães e pessoas brigando em volta. Ele apenas voltará a aparecer no terceiro ato.

Isso porque o roteiro vai abrindo os seus personagens para depois ir fechando-os, um a um. Cada um possui seu drama pessoal. Isso inclui, claro, Padre Karras (Jason Miller), que acabou de perder a mãe e não estava do lado dela quando isso aconteceu. Conselheiro espiritual da igreja, ele próprio se acha uma fraude, e diz ter perdido sua fé. Seu arco é dos mais pesados e desesperançosos do Cinema. Não há como não ficar pensativo e deprimido se analisarmos esses dois padres e seus destinos.

A vítima de possessão demoníaca é a pequena Regan (Linda Blair), filha de uma atriz famosa (Ellen Burstyn) e um pai ausente. Vinda de uma família que não possui religião, é curioso todo o processo de investigação médica que tem início quando Regan começa a se comportar de maneira muito estranha, alterando seu humor, o uso de palavrões e até a força física. O nível que a “doença” vai tomando é gradual, e sentimos o desespero da mãe a cada novo evento sinistro em torno da filha.

É importante entender que O Exorcista não parte direto para um cirso da Igreja Católica. Aliás, a despeito das visões do demônio e alguns acontecimento realmente sobrenaturais, o caso poderia muito bem ser descrito como uma experiência metafísica intensa que desafia nossos conceitos de realidade. Claro que é sobre demônios e o Deus cristão, mas ele não é levado tão em conta a ponto de ser uma história em que apenas cristãos poderiam se identificar (embora para eles, assim como em A Paixão de Cristo, deve ser muito mais doloroso de acompanhar ofensas à sua religião, como Regan utilizando um crucifixo para se ferir em seus órgãos genitais usando o nome de Jesus).

Mas o que torna O Exorcista um trabalho único é justamente esse carinho em não soar exagerado e apelativo. Mas o que se pode fazer quando a situação atinge níveis exagerados e apelativos? A questão não é bem sobre pessoas que já admitem existir forças sobrenaturais naquela casa, mas sim sobre pessoas que estão acuadas quando se deparam com acontecimentos cuja explicação foge a uma equipe de 80 médicos especialistas. Nem os próprios padres da história conseguem conceber o sobrenatural, mas são obrigados.

E é por este caminho que o espectador, por mais cético que seja, deve necessariamente ser apanhado. Com efeitos visuais que ainda hoje convencem (embora aqui e ali algo esteja datado e exagerado), esta é uma obra que não economiza maquiagem quando ela é necessária, e é por isso que nos lembramos vividamente das caras que ficou a pequena e doce Regan para compor sua possessão, e é justamente isso que torna sua transformação tão deprimente e desesperançosa.

Eu tinha muito medo infantil deste filme. Por décadas me recusei a revê-lo. Mas hoje este medo não existe mais, fora uma má impressão aqui e ali. Porém, como Cinema, o filme funciona maravilhosamente bem. Sua lógica espacial, a intensidade com que as coisas ocorrem e um roteiro enxuto tornam O Exorcista talvez não hoje um filme que dê medo nesta geração, mas um drama que ainda possui o peso da imaginação sobre as costas do que ousar assisti-lo e abraçar sua história sem restrições.

Wanderley Caloni, 2018-01-18. O Exorcista. IMDB.