O Filho Eterno

Nov 22, 2016

Imagens

Este é um filme simpático, simples, eficiente e simbólico. Mas faltam personagens, ou ao menos um personagem que sustente o drama, já que enquanto o protagonista precisa se expressar através da escrita e se fecha para o mundo (uma incongruência), seu indesejado filho é um desconhecido para nós, e não há nada no filme inteiro que nos faça pensar diferente do pai. A não ser, é claro, a pura e simples compaixão por um ser humano que, mesmo que não pareça estar ciente do mundo à sua volta, merece supostamente ser amado. E é aí que reside minha bronca com o filme.

Não se trata de um detalhe à toa. Sem existir pelo menos uma pessoa “de carne e osso” em um filme que supostamente quer que nos importemos com ele e seu destino, fica muito difícil engolir a ideia de que devemos achar o filme belíssimo porque ele quer dar valor a crianças/pessoas com Síndrome de Down, ou conscientizar as pessoas a respeito do que é esta situação.

Bom, O Filho Eterno não consegue nem uma coisa nem outra. Para começo de conversa, o filme conta o nascimento do filho do casal principal e logo em seguida o médico dá a notícia aos dois, isso na década de 80, onde não havia muita sensibilidade com as palavras. A partir daí a única coisa que acompanhamos é a revolta, a decepção e o tormento que é para o pai, Roberto, ter esse seu filho no mundo. Pesquisando no começo incessantemente por uma solução, chega a torcer pela morte de Fabrício em seus primeiros anos, algo comum para os portadores dessa anomalia genética (e se decepciona depois, ao descobrir que o filho tem “saúde de ferro”).

Uma coisa fica clara logo no começo: Fabrício não é o tema desta história, e sim Roberto. E ele é um escritor que flerta com o estilo de Charles Bukowski, o poeta obsceno que vivia de porres e relacionamentos baratos. Aqui apenas ouvimos alguns versos de Roberto para perceber que ele é um escritor não apenas decepcionado, mas decepcionante, com um texto pedestre que o torna ainda mais desinteressante. O que não ajuda muito é a introspecção sem qualquer significado de Marcos Veras, que, acostumado à comédia, aqui parece perdido, embora se esforce em trazer um ar sério para um escritor afeito a relacionamentos abertos, mesmo que tenha sua mente extremamente fechada para a paternidade.

Prova disso é a incompreensão que Roberto tem até do próprio pai, relojoeiro, que cai em seus versos no formato do tempo. O futebol também é um tema constante, embora Roberto tenha parado de assistir jogos do Brasil desde o nascimento de Fabrício, fatidicamente no dia da derrota na Copa do Mundo para a Itália. A partir daí acompanhamos junto do crescimento do menino as diferentes edições do torneio em que o Brasil postergava eternamente a conquista do seu tetracampeonato. E não é necessário dizer mais nada para percebermos para onde irá o roteiro de Leonardo Levis, baseado no romance de Cristovão Tezza.

Mas se a história nem a atuação empolgam, pelo menos o diretor Paulo Machline não faz feio, utilizando uma narrativa simples, quase sem muito impacto, que narra exatamente as idas e vindas do tempo e espaço, e que embora seria muito mais agradável de acompanhar em uma história que sai do lugar, aqui dá lugar à mesmice repetida à exaustão. Outro ponto positivo de Machline é não dar vazão ao melodrama, algo que Débora Falabella como a esposa/mãe Cláudia até faria questão de pontuar ainda mais caso não estivesse tão apagada.

Infelizmente, o mesmo bom senso aplicado por Machline não é seguido pelos roteiristas, que desempenham o papel de manter a história burocrática e arrastada mesmo em pouco mais de 80 minutos. Nem a trilha sonora dos irmãos Garbato, responsáveis esse ano pelo excelente O Silêncio do Céu, fugiram do convencional, com uma orquestra que realiza um passeio calculado e que nunca levanta pouso. Ao mesmo tempo, a direção de arte faz sua lição de casa em avançar o tempo através de pequenos detalhes, como a televisão presente na casa, ou a troca dos modelos dos carros, mas empalidece frente às transformações de ambiente de outro filme brasileiro no ano, “Nise: O Coração da Loucura”, que se passa em um hospício nas décadas de 20 e 30. O máximo que conseguem, além de um resultado já esperado, é uma rima elegante quando vemos Roberto em frente à tela de um monitor da década de 90, tão ou mais próximo do que seu filho da TV, algo que era sempre motivo de broncas do pai.

Colocando ainda Roberto em uma transformação motivada pela dor e sofrimento, O Filho Eterno é um filme pautado pela compaixão incondicional que se parece muito com uma versão não-religiosa de “Aparecida: O Milagre”, pois realiza manobras com seus personagens sem sequer desenvolvê-los. Vivem para sempre como estereótipos inacabados, exatamente como o jovem Fabrício, que realmente possui a Síncrome de Down. Ao menos ele possui uma desculpa para sua “atuação” (que nem sai tão ruim se comparado ao desastroso “Colegas”, protagonizado por três atores com a anomalia genética). Já os outros atores e personagens simplesmente patinam mais uma vez em um tema difícil de ser explorado sem soar vazio de significado, justamente porque as pessoas com Down possuem uma barreira intransponível de comunicação. Dessa forma, não se pode esperar muito do espectador, exceto que eles projetem um melodrama neste filme e se emocionem, ainda que por causa deles mesmos.

Wanderley Caloni, 2016-11-22. O Filho Eterno. O Filho Eterno (Brazil, 2016). Dirigido por Paulo Machline. Escrito por Leonardo Levis, Cristovão Tezza. Com Débora Falabella (Cláudia), Marcos Veras (Roberto), Pedro Vinícius (Fabrício). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.