O Funcionário do Mês

Aqui está a comédia definitiva sobre como a mente acomodada, preguiçosa e aproveitadora dos humanos funciona. Nada como transformar um funcionário público italiano como o herói dessa jornada em direção à humanidade. A mensagem do filme é clara: A única esperança é arregaçarmos as mangas e trabalhar. E que bela mensagem libertária!

E embalada em uma comédia italiana escrachada.

Acompanhamos as desventuras de Checco Zalone (Checco Zalone) para conseguir continuar mamando nas tetas do Estado durante uma reforma política. Ele nasceu para isso, mas tem dado azar ultimamente. De transferência em transferência, Checco acaba chegando no Polo Norte, na Noruega, e lá também a civilidade de um povo que vive seis meses no claro e seis meses no escuro.

E que se suicida bastante quando está no escuro.

Essa é uma comédia que não tem medo de fazer piada de todos os lados. Ela não é politicamente correta em nenhum momento, mas se recusa a baixar o nível. Ela apenas utiliza a ignorância do herói, que interpretado por Checco Zalone com uma versatilidade ímpar, soa autêntica a todo momento, mesmo que algumas situações soem forçadas.

A única coisa que não é motivo de chacota é o ato de ajudar as pessoas, ajudar os animais, ajudar o planeta. Por isso disse que a mensagem é clara: não importa se você buzina para o carro à frente ou não sabe cozinhar macarrão como um italiano. A única pergunta realmente válida é: você se importa em viver além do seu próprio umbigo?

A direção/edição ágil de Gennaro Nunziante não nos permite pensar muito no que estamos vendo, mas apenas rir. E rir muito. Praticamente todas as piadas funcionam, seja pela criatividade em contá-la ou pela presença de espírito de Zalone, que é o coração e a mente do filme.

Note seus trejeitos. Não apenas os clássicos movimentos com a mão – um presente à parte da Madre Itália – mas também o desdém de quem nasceu e cresceu mimado por todos: família, amigos, governo.

Note também as roupas caras e infantis de Checco, parecendo um “buona vita” em exercício em um cargo vitalício. Note como seu pijama de 300 euros combina com a soma dos seus benefícios. Note a manipulação barata (e eficiente) com que Checco consegue ser carregado pela sua nova amiga para o fim de semana, tendo já feito estrategicamente sua mala. Seus movimentos de ombros como quem é o rei das selvas em qualquer lugar em que puder carimbar uma licença ou assinar uma multa. Nunca um carimbo ou uma caneta foram tão bem simbolizadas (e note de quais mãos sai a singela caneta para sua fatídica assinatura; seria uma mensagem subliminar que as coisas estão mudando?).

O Funcionário do Mês com certeza é divertido, enérgico, frenético. Mas mesmo assim consegue contar uma fábula. Não a do funcionário público folgado, mas a de qualquer pessoa folgada. Dar risada de si mesmo é tão estimulante quanto repensar por que vivemos dessa forma.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-08-12. O Funcionário do Mês. Quo vado? (Italy, 2016). Dirigido por Gennaro Nunziante. Escrito por Gennaro Nunziante, Checco Zalone. Com Checco Zalone, Eleonora Giovanardi, Sonia Bergamasco, Maurizio Micheli, Lino Banfi, Ludovica Modugno, Antonino Bruschetta, Paolo Pierobon, Azzurra Martino. imdb