O Grande Chefe

Uma comédia pautada no absurdo, mas que ancora suas situações em neuroses realistas nos colegas de uma empresa. No entanto, tais neuroses nunca seriam expostas por pessoas reais, e a beleza de O Grande Chefe é justamente deixar fluir o comportamento humano até suas últimas consequências, enquanto ironicamente o comportamento de um ator medíocre é analisado sob a ótica da incompetência.

Aliás, não se sabe até onde vai a incompetência de Kristoffer (Jens Albinus), o ator contratado pelo dono da empresa, o sempre solícito Ravn (Peter Gantzler), para se fazer passar por seu presidente para assinar um contrato com um empresário de outro país, e que influencia diretamente no humor construído justamente por essa ode à incompetência dos superiores na hierarquia de um escritório. Obviamente inapto para o “papel”, Kristoffer tem como seu mentor o dramaturgo Antonio Stavro Gambini, cuja máxima é “O Teatro se desdobra até o ponto em que ele termina”, como ele diz em sua primeira fala. O surrealismo de Gambini respira dentro do personagem e da persona de Kristoffer, e a angústia que sentimos ao ver interpretar o dono de uma empresa com total inabilidade bate de frente com a angústia de não entendermos as reações de seus “subordinados”, o grupo de seis funcionários que “trabalham para ele” há dez anos, desde o nascimento da empresa.

Tendo como principais atrativos uma diretora de RH, um depressivo-agressivo e uma mulher que se assusta com a fotocopiadora, o filme constrói sua realidade sempre com pé atrás na verossimilhança, podendo parecer para alguns espectadores mais exigentes um trabalho menor. No entanto, basta olhar com atenção para o cinismo e o tom jocoso do diretor/roteirista Lars von Trier para perceber que nada daquilo é ao acaso, ou simplesmente para fazer rir. As situações vão milimetricamente e imprevisivelmente aparecendo para ornar com um roteiro que nunca te entrega o suficiente para termos certeza, mas ao mesmo tempo entrega o bastante para ficarmos interessados em seu desenrolar. Note, por exemplo, como a cada novo desenlace as conversas no “território neutro” (entre o real dono e o ator em um lugar fora do escritório) aumenta ainda mais a tensão.

Como se não bastasse, há um narrador em off que aparece duas ou três vezes no filme em sua segunda metade, aumentando a sensação de não estar 100% confiante de qual camada na história estamos assistindo, ou se todas elas juntas. Podemos estar sendo enganados, também – na verdade, no Cinema sempre estamos, mas sabemos disso – ou podemos querer acreditar na enganação. De qualquer forma, a farsa toma influência em nós, e se os funcionários não percebem que o dono da empresa mal entende o que quer dizer a palavra outsourcing, quem fica cada vez mais preocupado é o espectador. De certa forma, von Trier faz uma crítica não apenas à “diretoria”, mas também ao gado que age inerte ao mundo que o cerca.

O mundo de O Grande Chefe pode ser absurdo do começo ao fim, mas ele sempre irá nos lembrar como alguns absurdos existem aos montes na vida real, e como é difícil, quando vemos com uma lupa, diferenciar as coisas.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-09-30. O Grande Chefe. Direktøren for det hele (Denmark, 2006). Dirigido por Lars von Trier. Escrito por Lars von Trier. Com Jens Albinus, Peter Gantzler, Friðrik Þór Friðriksson, Benedikt Erlingsson, Iben Hjejle, Henrik Prip, Mia Lyhne, Casper Christensen, Louise Mieritz. imdb