O Hobbit Uma Jornada Inesperada

Baseado no romance de 310 páginas escrito por J. R. R. Tolkien — conhecido aqui no Brasil como “O hobbit ou Lá e de Volta Outra Vez” — e dirigido por Peter Jackson (trilogia Senhor dos Anéis), a história do pequeno hobbit em sua jornada na companhia de 13 anões e um mago foi dividida em três filmes. Esse texto diz respeito ao primeiro deles, “Uma Jornada Inesperada”.

A introdução que conta a história da montanha habitada por anões e que é subitamente atacada por um gigantesco dragão (Smaug) é sucinta e não desperta o mesmo fervor da fábula épica iniciada em “Senhor dos Anéis — As Sociedade do Anel”. Da mesma forma a solução apresentada pelo roteiro escrito a oito mãos (!) para que o jovem Bilbo Bolseiro (Martin Freeman, Sherlock) participe da empreitada junto com os anões que decidiram reconquistar sua terra soa desproporcional à sua vontade de viver uma aventura. Isso por si só enfraquece toda a premissa. (E depois que este quinto hobbit aceita sair do conforto do seu condado para viver agruras na inóspita Terra Média, começo a duvidar do caráter caseiro dessas curiosas criaturas.)

Mesmo assim, “O hobbit” ganha forma através não de Bilso, mas do mago Gandalf (Ian McKellen), que aqui mexe muito mais com o destino de seus companheiro do que na jornada anterior, chegando a sugerir ações futuras para dois deles. Sempre simpático e hábil em lidar com as criaturas do universo criado por Tolkien, é o único personagem que consegue surpreender sem exagerar.

E se a música-tema cantada pelos anões na noite em que se reúnem pela primeira vez é encantadora, já não é tanto a atitude de Jackson em empregar os mesmos acordes de Howard Shore incessantemente durante toda a narrativa, o que pode perigosamente a enfraquecer nos momentos primordiais de ação.

E já que falamos de ação, não são as cenas movimentadas que impressionam o espectador atento com aquele universo, mas dois diálogos especialmente inspiradores e que, realizados praticamente sem qualquer vínculo com os anões ou o próprio destino de Bilbo, curiosamente seus participantes são as figuras mais interessantes da trilogia anterior, o que é um alívio.

Com uma conclusão satisfatória, mesmo que saibamos se tratar de apenas um terço do livro, “Uma Jornada Inesperada” estabelece a jornada da mesma forma com que foi feito em “A Sociedade do Anel”, mas sem o tom épico, sem a força da jornada espiritual e, principalmente, sem um fio condutor que nos diga o que é importante nesse universo tão rico e fascinante.

Sobre os 48 FPS (frames por segundo).

Uma nova tecnologia nasce no Cinema. Pode ser revolucionário ou temporário. Vai depender, como sempre, dos espectadores.

Como cinéfilo, preciso apontar minha satisfação em detectar algumas vantagens na nova forma de projeção, principalmente aliado ao 3D: geralmente mais escuro por motivos óbvios — apenas metade da luz passa por um óculos 3D, a outra metade serve para dar o efeito de profundidade — a exibição de um quadro a mais por segundo consegue dar mais nitidez às cenas noturnas ou com pouca luz. Se antes o que víamos era um borrão escuro, agora pelo menos temos a chance de observar pequenas nuanças e texturas.

Da mesma forma, a mesma nitidez em vermos o dobro de quadros por segundo permite que Peter Jackson em O hobbit possa mover sua câmera com mais velocidade e mesmo assim não perdermos o foco ou o senso de profundidade. Acostumados a perder um pouco do movimento do cenário quando a câmera se move, em 48 fps parece que a ação nunca se perde, e os contornos dos objetos continuam, independente de quanta ação está sendo mostrada na tela.

Agora, os defeitos (sim, eles existem): quando usado em cenas com a luz do dia, os atores parecem exatamente o que são: atores. Ou seja, não há aquela suspensão de realidade criada pelo filtro fotográfico aplicado na pós-produção nem pela perda de silhueta quando os personagens se movem. O que vemos é a performance muito próxima a de um teatro. Isso pode quebrar em um primeiro momento para os cinéfilos mais atentos o que chamamos de imersão cinematográfica. O risco é que para o espectador comum, acostumado a televisores que já utilizam esse efeito “estragando” a visão original de diretores como James Cameron em Avatar fazendo o filme se parecer com um telejornal.

Se esse espectador médio, não-exigente por padrão, começar a apreciar esse novo formato na sétima arte, poderemos ter mais um dilema indústria x arte no Cinema.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2012-12-17 imdb