O Homem da Máfia

Esse é um ótimo filme sobre as ações e decisões de um grupo de mafiosos a respeito do destino do seu negócio de jogatina. Basicamente o que se coloca em jogo é a confiança dos donos dessas casas depois que um deles, Markie Trattman (Ray Liotta), rouba seu próprio negócio. O que o torna um filme excepcional é que essa manutenção da confiança no sistema ilegal de jogos de azar traça um paralelo direto com a crise econômica nos Estados Unidos iniciada em 2007 e que até hoje ecoa pelas casas vazias e massas de desempregados cheios de dívidas. A confiança no sistema financeiro também foi abalada naquele momento e algo teve que ser feito.

O que o governo fez e faz para resolver o rombo em suas estruturas é o tema-recheio que se expande através dos olhos aguçados do roteirista Andrew Dominik, baseado no romance de George V. Higgins. No entanto, o que é mais impressionante é que o romance de Higgins, Cogan’s Trade, foi publicado em 1974, e o que resta hoje são os vários diálogos que fazem parte de capítulos inteiros do livro, que preferem ruminar sobre a psicologia dos seus criminosos do que a ação em si.

Nesse sentido, o plot do livro cai como uma luva. Utilizando o som de rádios e televisões que sintonizam a voz do na época senador Barack Obama e o presidente George W. Bush, as decisões políticas entrecortam os diálogos dos criminosos no filme. As cenas de ação são poucas, mas possuem uma intensidade incrível, além de um prazer estético que flertam com o Tarantinesco, só que com muito mais profundidade. Destaco dois: a longa sequência sem cortes de entrada e saída da casa de jogos, cuja tensão final é hipnotizante; o assasinato dentro do carro, cujas balas acompanham o movimento da música.

No entanto, mesmo que as cenas de ação mereçam um destaque são os diálogos que prende a atenção pelas atuações sempre interessantes de todo o elenco, sempre parecendo ter algo mais a dizer. Brad Pitt como o frio e calculista Jackie mata a pau no início e no fim, mas o diálogo que ele tem com Frankie no bar a respeito dele ter opções é um momento icônico para a trama justamente pela expressão na cara de Scoot McNairy. E mesmo o insuportável Mickey (James Gandolfini) é uma caricatura construída exatamente para se tornar insuportável aos nossos olhos, para que nós mesmo percebamos que ele não é o cara certo para o serviço. E se Ray Liotta faz aqui uma participação mega-especial com o dono de jogatina Markie Trattman — e cujo caráter do personagem faz eco com seu personagem em Os Bons Companheiros — a cereja do bolo é mesmo Ben Mendelsohn, que faz um Russell estúpido e crível, e cujas cenas onde está chapado servem tanto como exercício estilístico — como a bela transição entre a fumaça e as lanternas do carro — quanto como mais uma caracterização metafórica que deixa em aberto quais são os papéis dessas pessoas na jogatina profissional e os senhores que a controlam: respectivamente a bolsa de valores e o sistema financeiro/político americano.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-12-12. O Homem da Máfia. Killing Them Softly (USA, 2012). Dirigido por Andrew Dominik. Escrito por Andrew Dominik, George V. Higgins. Com Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Richard Jenkins, Vincent Curatola, Ray Liotta, Trevor Long, Max Casella. imdb