O Homem Elefante

Não vi muitos filmes do David Lynch, mas este é de longe o mais “comportado” em narrativa. Tem começo, meio e fim. Possui uma narração gradativa, dando tempo para pensarmos no que exatamente está acontecendo em volta de John Merrick (John Hurt), um homem desfigurado usado como atração de circo e conhecido como O Homem Elefante. Quando conhecemos Merrick ele não tem nome e quase não o vemos, só na imaginação. E ele tem um dono: um sujeito conhecido como Bytes (Freddie Jones), que não se preocupa em tratá-lo como um animal de fato. O próprio filme começa com a visualização dessa fantasia do imaginário popular: o filho de uma mulher e um elefante.

Comovido com a situação, mas ao mesmo tempo interessado no aspecto anatômico do pobre homem o médico Frederick Treves (Anthony Hopkins) resolve resgatá-lo. Para isso ele precisa do aval de todos os membros do London Hospital – onde trabalha – mas há uma dificuldade: Merrick é totalmente incurável. Não há como aliviar sua dor a não ser o tratando com dignidade, algo que é possível apenas ali, em torno de pessoas que compreendem que há um ser humano por trás das deformações de Merrick (será mesmo?). Isso também levanta uma questão ética sobre o que é mais importante: tratar um paciente curável ou reservar este espaço para um homem que sabidamente não conseguirá nada do mundo lá fora?

Esse é um caso real – Joseph Merrick realmente existiu e viveu no século 19. Nessa época as pessoas menos instruídas o enxergavam apenas como um monstro, sendo que constantemente durante o filme somos levados a crer que é exatamente o contrário. Merrick aos poucos se revela um ser humano sensível e agradável. Lynch vai tirando as camadas de estranheza daquele ser um a um. Começamos apenas imaginando o “monstro”, depois o vemos, depois o falar, depois o conversar e, finalmente, o se relacionar/pensar/sentir. De um “ser bestial” a um ser humano basta outros seres humanos o aceitarem como igual. Infelizmente no mundo real nem é preciso ter uma cabeça gigantesca para ser tratado como uma aberração.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2014-12-01 imdb