O Homem Irracional

O ritmo atual de Woody Allen em escrever e dirigir um filme por ano simplifica seus trabalhos, mas exatamente por isso permite-nos enxergar de maneira mais específica os assuntos que ele sempre deseja tratar. E no caso de O Homem Irracional, onde o protagonista é um professor de filosofia, o que tinha tudo para ser um tratado mais espesso e complexo sobre a natureza humana se transforma em um exercício leve e simples de entender.

O que não quer dizer que se trata de um trabalho simples de interpretar. Afinal, estamos falando de Woody Allen falando sobre filosofia. De qualquer forma, arrisco dizer que este Woody Allen é uma versão tão impotente quanto seu personagem-chave.

De qualquer forma, sem querer entrar em detalhes de qualquer teoria específica sobre vida, morte e tudo mais, acompanhamos a vinda de Abe (Joaquin Phoenix) a uma nova escola onde irá lecionar. Tendo um passado traumático em diferentes aspectos de sua vida, e tendo tentado inutilmente fazer alguma diferença prática em melhorar o mundo se envolvendo em diferentes formas de militância e caridade, sua frustração tem aumentado no nível em que viver não o traz mais significado, e portanto realiza suas aulas e sua rotina de uma maneira mais automática e passiva possível.

Abe é um homem que tem todos os motivos para ser impotente, sexualmente falando. O que de fato é. E isso acaba frustrando duas mulheres que ele conhece: uma professora e uma aluna, Jill (Emma Stone). No começo, pelas fofocas de mulherengo a respeito de Abe e sua irreverência em beber o dia inteiro, acreditamos que sua insistência em se fazer de inocente é só um charme para conseguir mulheres mais facilmente. No entanto, aos poucos a persona criada por Joaquin Phoenix consegue convencer-nos de uma profunda insatisfação com a vida prática de alguém que tentou através dos livros trazer algum significado.

E, de certa forma, há motivos suficientes para acreditar que suas ideias, ditas originais, a respeito dos autores que discute em sala de aula – ou apenas descreve – não são mais originais que um comercial de sabão em pó. A forma utilizada por Abe encanta as meninas, mas o conteúdo está quebrado. Essa ambiguidade, proposital ou não, torna a experiência de tentar descobrir um exercício intelectual que não precisa de bagagem intelectual. O que é ótimo para um público leigo.

Porém, o que ocorre depois pode dar um nó no parafuso dos mais aficionados a questões morais. Acreditando ter descoberto uma maneira de finalmente melhorar o mundo na prática, Abe decide que é necessário cometer um assassinato. Ao desenvolver o tema, e seus inevitáveis desdobramentos a posteriori, a simples questão de dar à vida um significado ganha diferentes tons que apenas realizadores como Allen teria a audácia de abordar.

De qualquer forma, como disse, o filme é um dos trabalhos mais impotentes do diretor, e embora envolto em ideias fascinantes, o roteiro também está recheado de pistas simples do que está acontecendo, e reviravoltas já conhecidas de fãs do diretor. Para dar um exemplo, qualquer espectador de Match Point se sentiria milhas à frente dos personagens deste filme.

Sem ter muito como reinventar a roda, revemos um exemplar de Crime e Castigo em cena – o livro do autor russo Fyodor Dostoyevsky já usado em Match Point – e mais sobre o caos, a sorte e o revés. Porém, dessa vez, os motivos do filme parecem ser apenas esses, sem a profundidade da questão social que Match Point coloca. Se na obra-prima de Allen sobre o acaso acreditamos de fato estar lidando com forças incompreensíveis, agora somos conhecedores desse universo do autor, que é o mesmo, e acompanhar desdobramento semelhante se torna tão fascinante quanto enfadonho.

Conseguindo representar um exercício verborrágico sobre filosofia sem precisar inundar de detalhes o espectador desavisado, mas ainda assim atingir a ineficiência da teoria em um filme que fala sobre agir, O Homem Irracional se transforma em um dos filmes mais frustrantes da carreira recente do diretor, mas justamente por isso um dos mais interessantes de acompanhar.

Afinal, se frustrar com labirintos mentais é o que a filosofia faz de melhor. E Woody Allen é filosofia na sétima arte.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-07-29 imdb