O Homem Que Mudou o Jogo

Mar 6, 2012

Imagens

Brad Pitt é um ator com um controle de personagem invejável. Podemos acompanhar sua trajetória em papéis mais exóticos como o do vampiro Louis (Entrevista com o Vampiro), do maníaco Jeffrey Goines (Os 12 Macacos), do inconsequente Tyler Durden (Clube da Luta) e do cômico Tenente Aldo Raine (Bastardos Inglórios) e compararmos com papéis mais contidos ou dramáticos como o pai de família em A Árvore da Vida, o detetive David Mills em Seven e o gerente de um time de beisebol Billy Beane, papel que desempenha em O Homem que Mudou o Jogo que faz ficarmos em dúvida se existem dois, três ou mais clones do ator escondidos e revelados em momentos pontuais de sua carreira.

A história é baseada em um livro que por sua vez é baseada em fatos reais ocorridos com o gerente geral do time de beisebol Billy Beane do Oakland Athletics. Com o roteiro assinado (depois de vários conflitos com a produtora Sony) pelos ótimos Steven Zaillian (Os Homens que Não Amavam as Mulheres versão 2011) e Aaron Sorkin (A Rede Social), a direção documental de Bennett Miller — que usa com o diretor de fotografia Wally Pfister uma granulação maior justamente para ampliar a temática para a vida real — acerta em manter os atores parados e dialogando a maior parte do tempo, dando ênfase em suas performances e facilitando nossa identificação com a história e os personagens. Porém, acerta mais uma vez em determinados momentos se deixar levar por uma abordagem mais poética, mas que exatamente por refletir a realidade já mostrada se torna tão mais forte e tão mais presente em nossas mentes.

Ainda sobre o tom documental, os sons fazem parte da receita usada por Miller, além de possuírem a dupla função de identificar quando Billy Beane está acompanhando os jogos e quanto não está, como na belíssima introdução de seu personagem em um estádio vazio e escuro, no momento em que ele decide se deixa o rádio ligado ou não, ou mesmo quando em determinado momento ele retorna para o estádio onde ocorre um jogo determinante para sua equipe e pode-se ouvir a diferença de energia pelo som dos torcedores em volta em contrastre com seus momentos de solidão.

E se o filme pode soar parado e monótono, de uma forma geral existe muito mais por trás dos belos diálogos de Zaillian e Sorkin e dos comportamentos de seus personagens do que a princípio possa parecer. Podemos dizer que o filme em si começa e termina como uma fábula do beisebol, mas que internamente, nas entrelinhas, se transforma em algo mais, a ponto de representar uma lição/filosofia de vida (como um inspirado discurso sobre o que ocorre com as pessoas que ousam mudar qualquer sistema e o que ocorre em seguida com os que evitam mudar).

Mais interessante é notar que na dinâmica da história, mesmo com toda a importância de Billy Beane para o êxito de sua controversa equipe ele não é a estrela absoluta da história. Conta com a ajuda de Peter Brand (Jonah Hill), um economista brilhante que não se curva perante décadas de experiência e intuição esportiva, apesar de timidamente expor seus pontos de vista. É nessa dicotomia entre a especulação de jogadores virtuosa de Billy e a energia interna da convicção inabalável da ideia radical de Peter que conseguimos sentir as estruturas dos estádios seculares e dos treinadores inflexíveis sendo postas em cheque, ainda que lentamente e sem muita fé.

Aliás, fé, razão e intuição são conceitos colocados na mesa a todo momento, e mesmo nós, que assistimos de fora, ficamos com dúvidas durante todo o trajeto. Muitos sairão da sala de exibição convictos que sorte e/ou talento fazem toda a diferença do mundo, e outros sairão deixando essa convicção na poltrona. De uma forma ou de outra, não dá pra negar que a figura do eterno perdedor não está nas derrotas, mas no pensamento que o define. E uma vez que a pessoa se define perdedora, não há vitórias suficientes que a faça mudar de ideia.

Anotações

Relação e interação entre o gerente e o economista mostra não só como cada um faz muito bem sua parte, como quando um tenta fazer a parte do outro não funciona. Nesse sentido, temos o símbolo do trabalho em equipe, e ao enxergar o mesmo objetivo (como o diálogo com o jogador veterano ser o líder).

O turnpoint, quando finalmente o jogador que o gerente pede por metade do filme para rebater a bola é colocado em uma situação de desespero (o time estava ganhando de 11-0 e passa a ficar empatado 11-11, dependendo desse lance), então justifica a música piegas de superação, pois é ali que tudo muda para o gerente, que evitava assistir ou estar presente no estádio durante os jogos, mas que justamente por ter voltado para este vê seu time começar a perder (até o momento em que ocorre o turnpoint).

Note como Brad Pitt se posiciona sempre como um perdedor nato, seja ganhando ou perdendo. Sua falta de jeito em impor ânimo à equipe e seus dirigente é visível, com gestos que nunca são fortes o suficiente e uma fala sempre lenta e desanimada. Também a falta de jeito com as pessoas mostra na maioria das vezes ele dentro de uma penumbra, sombra (ou escondido nos vestiários).

Cena da escalada aos recordes funciona como contraparte do empate de 11-0 para 11-11, e demonstra como nunca a capacidade do diretor em nos levar à tensão e ao desespero facilmente. Nesse ponto da trama ele já possui todo o controle sobre nossos sentimentos e atenções.

Apesar de parecer mais longo do que deveria, todas as cenas são necessárias, inclusive a que finaliza com a discussão filosófica sobre como o dinheiro move o jogo (ou na verdade o que o dinheiro significa, ponto de vista do economista, de que merece pelo dinheiro, como medida de importância, e não por ele) e até da gravação da filha para o pai.

Por outro lado, a tentativa de criar um arco com a filha não soa tão orgânico, e mesmo seu medo do novo (não quer que a filha use internet nem celular), significando seu comportamento pra trás, também é em demasiado e não combina com as decisões ousadas que ele mesmo toma.

A maneira com que ele negocia os jogadores demonstra toda a virtude de gerente, mesmo que este não admita isso.

O controle da dramaticidade do personagem de Brad Pitt é visível quando este precisa demitir um jogador, em detrimento à visão desajeitada da realidade do seu companheiro (e quando este precisa avisar outro jogador).

Por outro lado, a timidez da filha encaixa perfeitamente como um contraponto e um reflexo do próprio pai, como pode-se perceber em uma cena onde ela canta para ele e termina em uma transição com aplausos do estádio, como se o pai também evitasse os aplausos ou o público pelo que ele faz.

O filme brilhantemente não dá uma resposta se foi um golpe de sorte ou houve habilidade como causa da vitória consecutiva, mas deixa claro que qualquer mudança fará com que o dinheiro se mova para onde a mudança flui.

Wanderley Caloni, 2012-03-06. O Homem Que Mudou o Jogo. Moneyball (USA, 2011). Dirigido por Bennett Miller. Escrito por Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin, Michael Lewis. Com Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Stephen Bishop, Reed Diamond, Brent Jennings, Ken Medlock. IMDB.