O Homem que Sabia Demais

Jun 16, 2011

Imagens

Para Hitchcock, aparentemente, não houve nenhum outro trabalho de destaque antes de O Homem que Sabia Demais. Digo pelos famosos títulos de Psicose, Janela Indiscreta e Os Pássaros. Até porque, de acordo com o IMDB, Hitchcock começou sua carreira em 22, o que quer dizer que temos aí cerca de 12 anos de amadurecimento do uso de sua técnica indiscutivelmente coesa em sua capacidade de gerar tensão.

Junto com os roteiristas Charles Bennett e D. B. Wyndham-Lewis (espero ter escrito certo), que já participaram com o diretor em outras obras, criam aqui a trama de um homem e sua mulher que recebem por acidente uma dica de assassinato. Para ficarem quietos, têm sua filha sequestrada, e para que consigam reavê-la, precisam entrar no mundo do crime e dos bandidos inescrupulosos.

Com a duração de 75 minutos e rodado em 16mm (que era usado para o mercado doméstico, e que dá um aspecto, hoje em dia, quase quadrado da razão de tela), o filme impressiona pela capacidade de, além de gerar tensão ao modo Hitchcock, conseguir unir duas pistas-recompensas vitais para a organicidade da trama e sua posterior satisfação.Porém, o mérito não repousa apenas no roteiro. Há o uso de transições inteligentes, como a entrada da igreja em uma longa sequência, e uma montagem ritmesca, esta última tensa pela própria natureza com que é concebida, ao aumentar a frequência dos cortes nas sequências finais, em que vários eventos ocorrem simultaneamente.

Na parte do elenco, a presença de espírito de Peter Lorre, que faz o bandido chefe de gangue Abbott, consegue convencer não só pela caricatura de um chefão maldoso por ser maldoso, mas pela mudança sutil de humor por trás de seu personagem, de forma que temos a sensação de nunca saber qual será o próximo passo de Abbott, o que gera uma insegurança latente em cada cena em que ele aparece.

Já Leslie Banks encarna o mocinho tranquilo, que sabe que não adianta resistir à situação, mas que ao mesmo tempo é sagaz em aproveitar-se das falhas de seu inimigo, o que nos dá a correta noção de satisfação ao compararmos a esperteza da trupe.

Aliás, um detalhe artístico que merece nota é o uso de câmeras que tentam reproduzir o que um determinado personagem vê ou sente (como desmaiar ou encher o rosto de lágrimas), o que vira uma ferramenta que contribui imensamente para a linguagem cinematográfica, dispensando diálogos supérfluos e facilitando a comunicação de ideias. Mesmo a trilha sonora, que aparece apenas em momentos pontuais, não é tão efetiva quanto esse tipo de construção, que é visual já na sua essência.

Wanderley Caloni, 2011-06-16. O Homem que Sabia Demais. The Man Who Knew Too Much (UK, 1934). Dirigido por Alfred Hitchcock. Escrito por Charles Bennett, D.B. Wyndham-Lewis, Edwin Greenwood, A.R. Rawlinson, Emlyn Williams. Com Leslie Banks, Edna Best, Peter Lorre, Frank Vosper, Hugh Wakefield, Nova Pilbeam, Pierre Fresnay, Cicely Oates, D.A. Clarke-Smith. IMDB.