O Ídolo
Wanderley Caloni, 2016-12-03

As pessoas se emocionam facilmente assistindo ao American Idol e outros programas do gênero e descobrindo novos talentos, seja pela televisão ou pelo YouTube. O que elas não sabem às vezes é que por trás desses talentos há uma história ainda mais emocionante.

É o caso de O Ídolo, um filme que tenta unir impacto emocional com biografia de uma maneira dinâmica e forçada. A primeira parte do filme é linda, pois mostra a inocência da infância de dois irmãos e seus amigos tentando se tornar uma banda de sucesso. Eles saem correndo na praia, em suas bicicletas percorrem o arame farpado da faixa de Gaza e até tocam em casamentos mais modestos. Nada parece deter o sonho da líder do grupo, uma menina que se disfarça de menino por conta da cultura local, mas que carrega coragem e determinação suficientes para levar todos para frente.

O diretor Hany Abu-Assad controla cada aspecto de seu elenco de maneira quase que visceral. Só perde para a cronometria de seu editor, Eyas Salman, que realiza um trabalho sólido, que faz transições entre bater de portas e atravessa anos em um piscar de olhos. A trilha sonora de Hani Asfari parece sincronizar exatamente com o timing do filme. Todos os artifícios técnicos da equipe estão em prol de uma história que flui facilmente.

Porém, o roteiro escrito por Abu-Assad e Sameh Zoabi carece de elementos mais poderosos em seu meio e final. Tudo parece ocorrer mais ou menos de maneira fácil e até natural para o agora adulto Assaf. Cada episódio é finalizado com sucesso, e o clima de video-game ganha até ares de milagre quando Assaf começa a cantar no banheiro. Sim, há um sentimento crescente, mas esse sentimento cresce muito mais no coração do espectador do que na construção da tensão pela história. A atuação de Tawfeed Barhom é sóbria demais para conseguirmos sentir a passagem do tempo, quando seu sonho (ou, na verdade, de sua irmã) congelou abruptamente.

Com um resultado misto, portanto, O Ídolo se beneficia da inocência e do dinamismo de seu começo, mas mesmo assim não consegue finalizar o gancho com seu final, onde entrega esta função para seu público, já habituado a se emocionar com vozes bonitas em vídeos do YouTube. Uma pena que as biografias hoje em dia entrem no cacoete de transitar entre a ficção e a realidade como se apenas isso gerasse uma identificação com o público. Às vezes é necessário olhar para si mesmo e entender que só porque alguém repete durante a infância que irá mudar o mundo, não necessariamente isso é verdade.

★★★☆☆ Ya tayr el tayer. Occupied Palestinian Territory. 2015. Direção: Hany Abu-Assad. Roteiro: Hany Abu-Assad, Sameh Zoabi. Elenco: Tawfeek Barhom (Mohammed Assaf), Kais Attalah (Mohammed Assaf), Hiba Attalah (Nour), Ahmad Qasem (Young Ahmad), Abdel Kareem Barakeh (Young Omar), Teya Hussein (Young Amal), Dima Awawdeh (Amal), Ahmed Al Rokh (Omar), Saber Shreim (Ahmad). Edição: Eyas Salman. Fotografia: Ehab Assal. Trilha Sonora: Hani Asfari. Duração: 100. Aspecto: 2.35 : 1. Biography. #cabine