O Ídolo

As pessoas se emocionam facilmente assistindo ao American Idol e outros programas do gênero e descobrindo novos talentos, seja pela televisão ou pelo YouTube. O que elas não sabem às vezes é que por trás desses talentos há uma história ainda mais emocionante.

É o caso de O Ídolo, um filme que tenta unir impacto emocional com biografia de uma maneira dinâmica e forçada. A primeira parte do filme é linda, pois mostra a inocência da infância de dois irmãos e seus amigos tentando se tornar uma banda de sucesso. Eles saem correndo na praia, em suas bicicletas percorrem o arame farpado da faixa de Gaza e até tocam em casamentos mais modestos. Nada parece deter o sonho da líder do grupo, uma menina que se disfarça de menino por conta da cultura local, mas que carrega coragem e determinação suficientes para levar todos para frente.

O diretor Hany Abu-Assad controla cada aspecto de seu elenco de maneira quase que visceral. Só perde para a cronometria de seu editor, Eyas Salman, que realiza um trabalho sólido, que faz transições entre bater de portas e atravessa anos em um piscar de olhos. A trilha sonora de Hani Asfari parece sincronizar exatamente com o timing do filme. Todos os artifícios técnicos da equipe estão em prol de uma história que flui facilmente.

Porém, o roteiro escrito por Abu-Assad e Sameh Zoabi carece de elementos mais poderosos em seu meio e final. Tudo parece ocorrer mais ou menos de maneira fácil e até natural para o agora adulto Assaf. Cada episódio é finalizado com sucesso, e o clima de video-game ganha até ares de milagre quando Assaf começa a cantar no banheiro. Sim, há um sentimento crescente, mas esse sentimento cresce muito mais no coração do espectador do que na construção da tensão pela história. A atuação de Tawfeed Barhom é sóbria demais para conseguirmos sentir a passagem do tempo, quando seu sonho (ou, na verdade, de sua irmã) congelou abruptamente.

Com um resultado misto, portanto, O Ídolo se beneficia da inocência e do dinamismo de seu começo, mas mesmo assim não consegue finalizar o gancho com seu final, onde entrega esta função para seu público, já habituado a se emocionar com vozes bonitas em vídeos do YouTube. Uma pena que as biografias hoje em dia entrem no cacoete de transitar entre a ficção e a realidade como se apenas isso gerasse uma identificação com o público. Às vezes é necessário olhar para si mesmo e entender que só porque alguém repete durante a infância que irá mudar o mundo, não necessariamente isso é verdade.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-12-03 imdb