O Impossível

Jan 7, 2013

Imagens

A abordagem que o diretor espanhol Juan Antonio Bayona realiza para contar a história da família que se separa durante o Tsunami de 2004 que matou mais de 230 mil pessoas consegue transmitir a emoção pelo drama específico sem se esquecer da perda incomensurável de vidas naquela tragédia que mudou a vida de muito mais pessoas que podemos imaginar. Diz ainda o que números nunca serão capazes de dizer: que cada vida que se perde é uma tragédia particular.

Os efeitos visuais e sonoros, com certeza ocupando a maior quantia da verba para o projeto, são importantes para que o trágico espetáculo fique na nossa mente por um bom tempo, mas apenas o seu uso inteligente, visceral, garante a sua efetividade no máximo. As tomadas mais apavorantes são as que nada vemos, mas ouvimos apenas, o barulho destruidor.

A trilha sonora, tão importante quanto os sons do próprio filme, marca presença até quando não se ouve, pois precisamos daquele respiro do silêncio, a reflexão entre cenas, para seguir adiante. Tão digno de nota quanto é a maquiagem utilizada especialmente em Maria, a mãe dos meninos, que sofre sérios ferimentos e vai aos poucos definhando, debilitada, tornando cada fala sua um ato de coragem por si só.

Desde o início percebemos uma troca muito justa: a inevitável previsibilidade do ocorrido deixa espaço para a intensidade de cada momento. O uso inteligente da câmera a torna uma testemunha com “opinião formada”: se aproxima quando exige intimidade, treme como nós mesmos tremeríamos e ainda tem a vantagem da uma visão panorâmica que tanto assusta quando é usada. É ela que acusa um Deus ausente, procurado-o nos céus logo após a tragédia e, já no hospital, usa-a na “primeira pessoa” para expressar que, se Ele existe, parece observar, impotente, os mortos enfileirados e a mãe que aguarda pela segunda cirurgia. As pessoas desse filme parecem ter muito mais força que seu Deus, e quase não sabemos de onde elas tiram a vontade de continuar.

Quase não sabemos, mas está ali todo o momento. Seus olhares denunciam facilmente, especialmente os de Lucas (Tom Holland), que transforma seu desespero em esperança de reencontrar o pai. Seu desempenho é a grande revelação do filme. Nitidamente à frente dos adultos, enxergar tanta vontade de viver e de ajudar o próximo em uma criança se torna de repente a mensagem mais poderosa que poderíamos aprender, essa nossa geração envelhecida e hipócrita.

Criando ou recriando um final cinematográfico, o que embute na mente do espectador que tudo aquilo poderia realmente ter ocorrido, vibramos e torcemos por aquela família como se fosse a única que não de desestruturou, se desmanchou pela fúrias das águas. Pecando talvez apenas ao não pontuar corretamente o esforço do pai, que varre literalmente todos os hospitais de abrigados (e deve ter perdido um pedaço de esperança em cada um deles) O Impossível não tem um final 100% feliz justamente por não esquecer que desastres como esse costumam marcar uma geração inteira. A coragem de não se esquecer disso é digna dos aplausos finais, uma decisão capaz de mudar algo em nós mesmos.

Wanderley Caloni, 2013-01-07. O Impossível. Lo imposible (Spain, 2012). Dirigido por J.A. Bayona. Escrito por Sergio G. Sánchez, María Belón. Com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Marta Etura, Sönke Möhring, Geraldine Chaplin, Ploy Jindachote. IMDB.