O Impossível

A abordagem que o diretor espanhol Juan Antonio Bayona realiza para contar a história da família que se separa durante o Tsunami de 2004 que matou mais de 230 mil pessoas consegue transmitir a emoção pelo drama específico sem se esquecer da perda incomensurável de vidas naquela tragédia que mudou a vida de muito mais pessoas que podemos imaginar. Diz ainda o que números nunca serão capazes de dizer: que cada vida que se perde é uma tragédia particular.

Os efeitos visuais e sonoros, com certeza ocupando a maior quantia da verba para o projeto, são importantes para que o trágico espetáculo fique na nossa mente por um bom tempo, mas apenas o seu uso inteligente, visceral, garante a sua efetividade no máximo. As tomadas mais apavorantes são as que nada vemos, mas ouvimos apenas, o barulho destruidor.

A trilha sonora, tão importante quanto os sons do próprio filme, marca presença até quando não se ouve, pois precisamos daquele respiro do silêncio, a reflexão entre cenas, para seguir adiante. Tão digno de nota quanto é a maquiagem utilizada especialmente em Maria, a mãe dos meninos, que sofre sérios ferimentos e vai aos poucos definhando, debilitada, tornando cada fala sua um ato de coragem por si só.

Desde o início percebemos uma troca muito justa: a inevitável previsibilidade do ocorrido deixa espaço para a intensidade de cada momento. O uso inteligente da câmera a torna uma testemunha com “opinião formada”: se aproxima quando exige intimidade, treme como nós mesmos tremeríamos e ainda tem a vantagem da uma visão panorâmica que tanto assusta quando é usada. É ela que acusa um Deus ausente, procurado-o nos céus logo após a tragédia e, já no hospital, usa-a na “primeira pessoa” para expressar que, se Ele existe, parece observar, impotente, os mortos enfileirados e a mãe que aguarda pela segunda cirurgia. As pessoas desse filme parecem ter muito mais força que seu Deus, e quase não sabemos de onde elas tiram a vontade de continuar.

Quase não sabemos, mas está ali todo o momento. Seus olhares denunciam facilmente, especialmente os de Lucas (Tom Holland), que transforma seu desespero em esperança de reencontrar o pai. Seu desempenho é a grande revelação do filme. Nitidamente à frente dos adultos, enxergar tanta vontade de viver e de ajudar o próximo em uma criança se torna de repente a mensagem mais poderosa que poderíamos aprender, essa nossa geração envelhecida e hipócrita.

Criando ou recriando um final cinematográfico, o que embute na mente do espectador que tudo aquilo poderia realmente ter ocorrido, vibramos e torcemos por aquela família como se fosse a única que não de desestruturou, se desmanchou pela fúrias das águas. Pecando talvez apenas ao não pontuar corretamente o esforço do pai, que varre literalmente todos os hospitais de abrigados (e deve ter perdido um pedaço de esperança em cada um deles) O Impossível não tem um final 100% feliz justamente por não esquecer que desastres como esse costumam marcar uma geração inteira. A coragem de não se esquecer disso é digna dos aplausos finais, uma decisão capaz de mudar algo em nós mesmos.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-01-07 imdb