O Incrível Mundo de Gumball

Mais um desenho de adultos que apela para o absurdo, a metalinguagem, o fofinho, o humor negro e o slapstick que ultrapassa o convencional em um formato quase tão criativo quanto A Hora da Aventura. Felizmente, Gumball tem senso do ridículo ou acaba sendo mais adulto.

A família de Gumball é mais um exemplo de família funcional que não precisa seguir regras para ser considerada saudável. Seus irmãos são criações de video-game, como um garoto sem pescoço mas cheio de pernas. O pai deles é um coelho de anime japonês fofinho, que vive em casa porque é muito burro para conseguir se manter em um emprego.

Seus personagens e cenários são criados com colagens ultra-criativas, que misturam técnicas de programas da TV Cultura (Castelo Rá-Tim-Bum, Glub-Glub, Vila Sésamo), mas que também usam conceitos tão disparatados quanto um Tiranossauro Rex indo pra escola ou um balão namorando um cactus. O diretor é uma coisa semelhante ao tio distante da Família Adams que namora uma professora, uma chimpanzé raivosa. Apenas descrevendo seu enredo é possível ter uma ideia ou da criatividade doentia dos criadores e ao mesmo tempo de uma possibilidade infinita de situações.

E com um enredo tão amplo é comum que diferentes histórias usem constantemente diferentes personagens que exploram uma característica ou uma situação específica. Como quando Gumball e seu irmão, depois de desistir de estudar para a prova, decidem colar, e vão parar no reformatório, uma espécie de prisão onde precisam lutar para sobreviver. O que se segue é uma inspirada compilação de histórias de prisioneiros, com direito a um preto e branco com uma música de superação cantada ao fundo pelos “detentos”, em câmera lenta e com sotaque sulista (leia-se: negro). É esse o nível de imersão cinematográfica que Gumball fornece, e quando falo sobre Cinema, não estou exagerando. Gumball e outros desenhos que apostam na metalinguagem, ou seja, aquela piscada para o espectador, que “entende a referência” da linguagem que pega emprestado (e se não entendesse colocaria tudo a perder) são conteúdo de primeira quando entendem que há uma fonte inesgotável de poder vindo desse quase-gênero. O próprio Cinema é craque em gerar conteúdo sobre o Cinema (e constantemente levam prêmios filmes que exploram esse lado, provavelmente porque as pessoas que trabalham com Cinema amam a arte em que estão inseridos).

Outro detalhe sensacional nas curtas (e independentes) histórias dos episódios é que você nunca sabe direito onde ela vai dar. Há um conflito a ser resolvido, mas a resolução nunca é muito clara. Até porque, como já vimos, os personagens deste universo estão constantemente nos surpreendendo pela diferença, e como praticamente ninguém é da mesma espécie, praticamente ninguém é igual em nada no desenho, gerando resultados diferentes para personagens diferentes. É engraçado como, mesmo quando a história é clichê, como a rivalidade entre o pai de Gumball e o vizinho senil, ela é desenvolvida partindo da premissa do imprevisível, tentando surpreender até seu último segundo.

O que, convenhamos, quase ninguém mais tenta realizar hoje em dia. Quando um desenho com pouco mais que 10 minutos faz isso, preste atenção. É algo que o Cinema poderia copiar mais vezes.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-16 imdb