O Incrível Mundo de Gumball

Oct 16, 2016

Imagens

Mais um desenho de adultos que apela para o absurdo, a metalinguagem, o fofinho, o humor negro e o slapstick que ultrapassa o convencional em um formato quase tão criativo quanto A Hora da Aventura. Felizmente, Gumball tem senso do ridículo ou acaba sendo mais adulto.

A família de Gumball é mais um exemplo de família funcional que não precisa seguir regras para ser considerada saudável. Seus irmãos são criações de video-game, como um garoto sem pescoço mas cheio de pernas. O pai deles é um coelho de anime japonês fofinho, que vive em casa porque é muito burro para conseguir se manter em um emprego.

Seus personagens e cenários são criados com colagens ultra-criativas, que misturam técnicas de programas da TV Cultura (Castelo Rá-Tim-Bum, Glub-Glub, Vila Sésamo), mas que também usam conceitos tão disparatados quanto um Tiranossauro Rex indo pra escola ou um balão namorando um cactus. O diretor é uma coisa semelhante ao tio distante da Família Adams que namora uma professora, uma chimpanzé raivosa. Apenas descrevendo seu enredo é possível ter uma ideia ou da criatividade doentia dos criadores e ao mesmo tempo de uma possibilidade infinita de situações.

E com um enredo tão amplo é comum que diferentes histórias usem constantemente diferentes personagens que exploram uma característica ou uma situação específica. Como quando Gumball e seu irmão, depois de desistir de estudar para a prova, decidem colar, e vão parar no reformatório, uma espécie de prisão onde precisam lutar para sobreviver. O que se segue é uma inspirada compilação de histórias de prisioneiros, com direito a um preto e branco com uma música de superação cantada ao fundo pelos “detentos”, em câmera lenta e com sotaque sulista (leia-se: negro). É esse o nível de imersão cinematográfica que Gumball fornece, e quando falo sobre Cinema, não estou exagerando. Gumball e outros desenhos que apostam na metalinguagem, ou seja, aquela piscada para o espectador, que “entende a referência” da linguagem que pega emprestado (e se não entendesse colocaria tudo a perder) são conteúdo de primeira quando entendem que há uma fonte inesgotável de poder vindo desse quase-gênero. O próprio Cinema é craque em gerar conteúdo sobre o Cinema (e constantemente levam prêmios filmes que exploram esse lado, provavelmente porque as pessoas que trabalham com Cinema amam a arte em que estão inseridos).

Outro detalhe sensacional nas curtas (e independentes) histórias dos episódios é que você nunca sabe direito onde ela vai dar. Há um conflito a ser resolvido, mas a resolução nunca é muito clara. Até porque, como já vimos, os personagens deste universo estão constantemente nos surpreendendo pela diferença, e como praticamente ninguém é da mesma espécie, praticamente ninguém é igual em nada no desenho, gerando resultados diferentes para personagens diferentes. É engraçado como, mesmo quando a história é clichê, como a rivalidade entre o pai de Gumball e o vizinho senil, ela é desenvolvida partindo da premissa do imprevisível, tentando surpreender até seu último segundo.

O que, convenhamos, quase ninguém mais tenta realizar hoje em dia. Quando um desenho com pouco mais que 10 minutos faz isso, preste atenção. É algo que o Cinema poderia copiar mais vezes.

Wanderley Caloni, 2016-10-16. O Incrível Mundo de Gumball. The Amazing World of Gumball (UK, 2011). Dirigido por Mic Graves. Escrito por Tobi Wilson, Benjamin Bocquelet, Jon Foster, James Lamont, Joe Parham, Mic Graves, Louise Coats, Nathan Auerbach, Daniel Berg. Com Jacob Hopkins (Gumball Watterson), Terrell Ransom Jr. (Darwin Watterson), Dan Russell (Richard Watterson / ...), Teresa Gallagher (Nicole Watterson / ...), Kerry Shale (Larry Needlemeyer / ...), Kyla Rae Kowalewski (Anais Watterson), Logan Grove (Gumball Watterson), Kwesi Boakye (Darwin Watterson), Sandra Dickinson (Crocodile Woman / ...). IMDB.