O Lado Bom da Vida

Feb 7, 2013

Imagens

A partir do primeiro encontro entre Tiffany (Jennifer Lawrence, Inverno da Alma) e Patrick (Bradley Cooper, Se Beber Não Case), mais precisamente no momento em que ela esbofeteia a sua cara, sabemos de imediato que vale a pena seguir essas duas vidas “para ver no que dá”.

Não que sejam as únicas pessoas que mereçam atenção. De uma maneira coesa e ao mesmo tempo torturante, o diretor e roteirista David O. Russell (O Vencedor) — baseado no livro de Matthew Quick — nos deixa conhecer um pouco dos outros fascinantes participantes daquela experiência de vida. Uso a palavra experiência pois Patrick acabou de sair do hospital psiquiátrico depois de um tratamento após quase matar o amante de sua mulher e Tiffany está tentando superar a morte do marido e sua recaída moral através do sexo banal. Pat, como costuma ser chamado, possui bipolaridade, e a divisão do seu nome talvez sugira sua tentativa de sempre tentar enxergar o lado bom, método empregado por ele para tentar se desvencilhar do seu lado agressivo.

O pai de Patrick, Mr. Pat (Robert De Niro, tocante sem soar piegas), após perder o emprego se tornou viciado em jogo de apostas e sofre de todo o tipo de superstição, muitas delas envolvendo a presença do seu filho, o que o transforma em um reflexo de si próprio e até uma maldição para Pat. Seu cunhado sofre a pressão do dia-a-dia e só consegue desabafar com o amigo por este ser imune a franquezas. Na verdade, a maior parte das franquezas do filme saem de sua boca. O método de Patrick de nunca ver o lado negativo das coisas no fundo é bem difícil de ser aplicado em sua vida em família, incluindo o seu bem-sucedido irmão (que parece servir para Pat como modelo idealizado do que gostaria de ser). David O. Russel faz uma brincadeira formando um círculo com seus amigos e familiares em sua casa que lembra o mesmo círculo de pacientes com quem Pat costumava se reunir; os problemas das pessoas “normais” começam a não parecer muito diferentes das pessoas em tratamento psiquiátrico.

Já Tiffany, assim como Pat, é um poço de ansiedade, algo que sutilmente ela consegue controlar quando está próximo dele, um desajustado social como ela. Sua tentativa de ignorar a morte do marido a faz usar o sexo casual como válvula de escape. Mais tarde entendemos os seus motivos. O. Russel não tem pressa de expor os seus personagens, pois entende que a melhor interação entre ambos só ocorre se estes se derem essa liberdade aos poucos. Também não utiliza apenas diálogos. A morada de Tiffany é separada da casa dos seus pais pelo quintal, o que facilita seus costumes sexuais mas que também é uma bela metáfora do alienamento de sua família (o que também explica sua ausência no filme), incapaz de suportar a não-adequação da filha aos costumes sociais.

O saco de lixo que Patrick usa para correr e o preto usado por Tiffany harmoniosamente caminham juntos — ou melhor, correm juntos, outra simbologia da ansiedade — e isso é estranhamente apropriado para eles no dia (e na noite) de Halloween (o primeiro encontro). Ainda que o drama de ambos seja encarado de maneira leve, o que poderia soar perigosamente desonesto, a entrega dos atores sempre convence. O ritmo é acelerado, como a mente de ambos e como todos que têm ansiedade. Isso ajuda a não pensarmos demais sobre o que está ocorrendo, mas nem isso se torna um problema quando ambos começam a dançar, mas torna óbvio que essa experiência para os dois é uma terapia social, além de protagonizarem momentos silenciosos e ao mesmo tempo tocantes. O uso da trilha não é invasiva, e sabe se calar quando a reflexão é necessária. Até os diálogos sabem se calar no tempo certo (como na breve conversa de Pat com sua mulher, o que de forma deturpada lembra o final de Encontros e Desencontros).

Por fim, se o uso de uma aposta final que una todos os finais soe a princípio forçado essa é a metáfora mais poderosa de todas, quando a estratégia de Patrick de catalisar as energias negativas em uma fagulha de esperança é posta à prova. A exposição de ambos com o uso da dança encontra uma belíssima rima com Pequena Miss Sunshine.

Dito isto, O Lado Bom da Vida não se esforça como uma produção Indie em tornar os seus personagens queridinhos por terem uma plantação de produtos orgânicos e namorarem uma negra (vide Minhas Mães e Meu Pai). Os personagens já são fascinantes apenas por existirem, e o filme apenas nos faz conhecê-los de corpo e alma em duas horas. E o faz muito bem.

Wanderley Caloni, 2013-02-07. O Lado Bom da Vida. Silver Linings Playbook (USA, 2012). Dirigido por David O. Russell. Escrito por David O. Russell, Matthew Quick. Com Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupam Kher, John Ortiz, Shea Whigham, Julia Stiles. IMDB.