O Lado Bom da Vida

A partir do primeiro encontro entre Tiffany (Jennifer Lawrence, Inverno da Alma) e Patrick (Bradley Cooper, Se Beber Não Case), mais precisamente no momento em que ela esbofeteia a sua cara, sabemos de imediato que vale a pena seguir essas duas vidas “para ver no que dá”.

Não que sejam as únicas pessoas que mereçam atenção. De uma maneira coesa e ao mesmo tempo torturante, o diretor e roteirista David O. Russell (O Vencedor) — baseado no livro de Matthew Quick — nos deixa conhecer um pouco dos outros fascinantes participantes daquela experiência de vida. Uso a palavra experiência pois Patrick acabou de sair do hospital psiquiátrico depois de um tratamento após quase matar o amante de sua mulher e Tiffany está tentando superar a morte do marido e sua recaída moral através do sexo banal. Pat, como costuma ser chamado, possui bipolaridade, e a divisão do seu nome talvez sugira sua tentativa de sempre tentar enxergar o lado bom, método empregado por ele para tentar se desvencilhar do seu lado agressivo.

O pai de Patrick, Mr. Pat (Robert De Niro, tocante sem soar piegas), após perder o emprego se tornou viciado em jogo de apostas e sofre de todo o tipo de superstição, muitas delas envolvendo a presença do seu filho, o que o transforma em um reflexo de si próprio e até uma maldição para Pat. Seu cunhado sofre a pressão do dia-a-dia e só consegue desabafar com o amigo por este ser imune a franquezas. Na verdade, a maior parte das franquezas do filme saem de sua boca. O método de Patrick de nunca ver o lado negativo das coisas no fundo é bem difícil de ser aplicado em sua vida em família, incluindo o seu bem-sucedido irmão (que parece servir para Pat como modelo idealizado do que gostaria de ser). David O. Russel faz uma brincadeira formando um círculo com seus amigos e familiares em sua casa que lembra o mesmo círculo de pacientes com quem Pat costumava se reunir; os problemas das pessoas “normais” começam a não parecer muito diferentes das pessoas em tratamento psiquiátrico.

Já Tiffany, assim como Pat, é um poço de ansiedade, algo que sutilmente ela consegue controlar quando está próximo dele, um desajustado social como ela. Sua tentativa de ignorar a morte do marido a faz usar o sexo casual como válvula de escape. Mais tarde entendemos os seus motivos. O. Russel não tem pressa de expor os seus personagens, pois entende que a melhor interação entre ambos só ocorre se estes se derem essa liberdade aos poucos. Também não utiliza apenas diálogos. A morada de Tiffany é separada da casa dos seus pais pelo quintal, o que facilita seus costumes sexuais mas que também é uma bela metáfora do alienamento de sua família (o que também explica sua ausência no filme), incapaz de suportar a não-adequação da filha aos costumes sociais.

O saco de lixo que Patrick usa para correr e o preto usado por Tiffany harmoniosamente caminham juntos — ou melhor, correm juntos, outra simbologia da ansiedade — e isso é estranhamente apropriado para eles no dia (e na noite) de Halloween (o primeiro encontro). Ainda que o drama de ambos seja encarado de maneira leve, o que poderia soar perigosamente desonesto, a entrega dos atores sempre convence. O ritmo é acelerado, como a mente de ambos e como todos que têm ansiedade. Isso ajuda a não pensarmos demais sobre o que está ocorrendo, mas nem isso se torna um problema quando ambos começam a dançar, mas torna óbvio que essa experiência para os dois é uma terapia social, além de protagonizarem momentos silenciosos e ao mesmo tempo tocantes. O uso da trilha não é invasiva, e sabe se calar quando a reflexão é necessária. Até os diálogos sabem se calar no tempo certo (como na breve conversa de Pat com sua mulher, o que de forma deturpada lembra o final de Encontros e Desencontros).

Por fim, se o uso de uma aposta final que una todos os finais soe a princípio forçado essa é a metáfora mais poderosa de todas, quando a estratégia de Patrick de catalisar as energias negativas em uma fagulha de esperança é posta à prova. A exposição de ambos com o uso da dança encontra uma belíssima rima com Pequena Miss Sunshine.

Dito isto, O Lado Bom da Vida não se esforça como uma produção Indie em tornar os seus personagens queridinhos por terem uma plantação de produtos orgânicos e namorarem uma negra (vide Minhas Mães e Meu Pai). Os personagens já são fascinantes apenas por existirem, e o filme apenas nos faz conhecê-los de corpo e alma em duas horas. E o faz muito bem.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2013-02-07 imdb