O Lamento
Wanderley Caloni, 2016-12-15

Poucos filmes de terror que eu vi são tão eficientes na estética e deficitários na história. Se bem que menos filmes ainda em que a história é muito boa, mas a estética apelativa, brutal.

Por isso eu gostaria de elogiar todo o prazer estético que senti em “O Lamento”, já que este é um filme que prioriza como o espectador se sente em cada cena isoladamente do que durante toda a história. Criando expectativas aterrorizantes em suas sequências devidamente ritmadas, o diretor Hong-jin Na atinge a perfeição em vários momentos, seja testemunhando um demônio de fraldas comendo tripas de animais na floresta ou um ritual místico envolvendo música alta e uma boa dose de edição.

Além disso, os aspectos técnicos são impressionantes. A fotografia funciona tão bem nos ambientes internos, destroçados pelo poder maligno que atinge o vilarejo, quanto na própria mística e deserta floresta, que sempre surge escura, nublada ou chuvosa. Isso sem mencionar os efeitos sonoros, que dão a exata sensação de uma pedra sendo atirada no asfalto ou pisar no meio de galhos úmidos.

Tudo isso está muito bem. O que não está bem é justamente o conjunto da obra, que aposta em um roteiro inchado com elementos místicos demais e acontecimentos místicos demais. Quero dizer, em meio a xamãs, fantasmas, demônios, zumbis e cogumelos mágicos, ainda inserir um personagem levando um raio na cabeça pode ser demais para a credulidade do espectador médio, quanto mais o especializado em terror.

E o núcleo da história, o policial gente boa, metade estúpido, metade sagaz, é desenvolvido pela metade com sua família, esposa, filha, sogra, para logo depois abandoná-los e só depois utilizá-los covardemente em um banho de sangue e feridas na pele que, assim como Eli Roth em O Albergue, provavelmente apenas a mente doentia do diretor/roteirista Hong-jin Na conseguiria criar.

Desnecessariamente inchado, propositadamente confuso (e sem sentido), não há como defender um filme desses do começo até o fim, onde as reviravoltas vão se acumulando em um jogo besta de quem é que diz a verdade (acredite ou não, o clímax do filme). No começo ele até ensaia ser uma crítica bem-humorada a clichês, usando a batidíssima cena do trovão e a pausa em uma conversa em uma noite chuvosa. E se você prestar atenção, existem vários elementos espalhados pelo longa que continuam dando essa ideia. Porém, quando a trilha sonora, a edição e a própria história se leva a sério demais, não há outra alternativa: este é apenas mais um ótimo filme ruim de terror.

★★★☆☆ Goksung. South Korea. 2016. Direção: Hong-jin Na. Roteiro: Hong-jin Na. Elenco: Do Won Kwak (Jong-Goo), Woo-hee Chun (The Woman of No-name), Jung-min Hwang (Il-Gwang), So-yeon Jang, Han-Cheol Jo, Hwan-hee Kim (Hyo-jin), Jun Kunimura (The Stranger). Edição: Sun-min Kim. Fotografia: Kyung-pyo Hong. Duração: 156. Aspecto: 2.35 : 1. Drama. #cabine