O Lobo de Wall Street

Assistir um filme do Scorsese, mesmo que acabou de estrear, é ser convidado para os anos 70. O que eu quero dizer com isso é que sexo, drogas, violência e moral serão mostradas sem aquele filtro horrível que infantiliza a nossa época. Curiosamente, se há uma característica que os “heróis” de O Lobo de Wall Street carregam em comum é a imaturidade. Porém, uma maturidade animalesca, que faz jus ao personagem-título.

E quanto a isso, os personagens de Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo) e Leonardo DiCaprio (Ilha do Medo) dão uma aula de interpretação longa e memorável, onde frases particularmente cruéis serão proferidas sem o menor sinal de sarcasmo. Olhamos com curiosidade, espanto e muita, muita admiração para a história de apogeu e declínio de um dos mais audaciosos golpistas de Wall Street. Baseado na autobiografia de Jordan Belfort, o filme é quase uma recapitulação do filme “Wall Street”, com Michel Douglas, para os tempos pós-nossa crise. Porém, diferente do drama cheio de culpa católica dessa vez a história segue aquela relativização deliciosa da moral, tornando a mensagem do filme ambígua, mas igualmente visível. Talvez cada um a interprete de sua forma, mas eu prefiro enxergar como um filme em que aqueles rapazes não são heróis nem vilões, mas chegaram onde chegaram por méritos próprios, enquanto o bater de martelo de uma impassível juiz leva 10 milhões em dinheiro para o governo à força de uma lei que bate forte no empreendedorismo selvagem. O roteirista usa frases fortes para quem deseja ficar do lado das inocentes pessoas que foram “enganadas” pela sua ambição e ganância (mas que nunca vemos a cara) e os compara a terroristas enquanto proferem frases de ódio aos EUA. Se isso está no livro, não saberia dizer, mas seria um sinal quase que contraditório do autor, pois até então temos a absoluta certeza que seus atos e consciência estão em uma uníssona harmonia.

O que mais impressiona visualmente é uma fotografia tão colorida quanto sombria, e que não deixa espaço nem no figurino nem na direção de arte para tons pessoais. Vemos apenas Belfort vestir um terno impecável, e, na maioria das vezes, azul, e seu melhor amigo Donnie Azoff (Hill) usar sempre tons claros e festivos. Porém, é interessante lembrar que o próprio Belfort em sua estreia em Wall Street vestia uma gravata colorida, e que ele próprio parece ter sido atraído para o “lado negro” da especulação através do excêntrico dono da primeira corretora onde trabalhou, Mark Hanna (uma inspirada participação de Matthew McConaughey). Note como diversos traços de Hanna vão aos poucos aparecendo em Belfort, da mesma forma com que os funcionários de sua própria corretora ganham feições e frases que os tornam, nas próprias palavras de Belfort, os Oompa Loompas de sua Fantástica Fábrica de Dinheiro. O filme ganha fôlego na tensa história através de uma excelente seleção de músicas, que parecem sempre inapropriadas, assim como muitas das ações inicialmente hilárias daquelas pessoas se tornam com o passar do tempo embaraçosas.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-01-30 imdb