O Lugar Onde Tudo Termina

É uma satisfação imensa presenciar tantas virtudes técnicas juntas em um filme ambicioso também em seu lado narrativo e temático. Há muitas ideias a serem interpretadas e sentidas em O Lugar Onde Tudo Termina, sendo a principal delas é: até que ponto nossas escolhas conseguem influenciar de alguma forma o futuro? Há uma justiça (divina ou não) em algum lugar ou tudo é uma questão de interpretação?

Iniciamos a história com Luke (Ryan Gosling), um motoqueiro cuja longa sequência sem corte em que o vemos adentrar em um globo da morte e fazer peripécias com três motos juntas já apresenta também sua habilidade e denota a intenção do diretor Derek Cianfrance de tornar seus atores famosos em figuras mais humanas e realistas (como já havia feito no excelente Namorados para Sempre). Há um relacionamento passado que revela que Luke é pai (uma referência e reversão de expectativa interessante com os arquétipos de Star Wars), resultado de uma aventura amorosa com Romina (Eva Mendes). A tristeza de Luke perante a incapacidade de formar uma família ou ao menos manter-se por perto é o ponto de transição que faz com que ele se isole de sua fama e reinicie sua vida se fixando no local.

Porém, quando conhece Kofi (Ben Mendelsohn) e sua vida passada de assalto a bancos, Luke vê aí uma possibilidade de conseguir ao menos sustentar financeiramente seu filho. É o amor de pai que o move para o mundo do crime e o figurino afiado mostrando suas roupas esfarrapadas e seu deixo trouxo de falar que deixa claro que não há muitas alternativas para o obviamente limitado intelecto de Luke.

E é aí que reside o ponto mais ambicioso da trama: acontecimentos que não vêm ao caso trazem à tona outro personagem relevante no meio do filme. A ambição narrativa dos quatro roteiristas e a perfeição técnica com que a narrativa é alinhada com a ajuda do montador Jim Helton concebem uma fluidez admirável para um filme que simplesmente descarta qualquer afeição com a pessoa que iniciou toda a história.

Não apenas isso: a fotografia, inicialmente de um ensolarado e planos abertos que evocam os sentimentos selvagens de Luke e seu desejo de liberdade se fecha para um azul melancólico e que acompanha planos cada vez mais fechados (cenas mais internas, closes mais próximos com menos iluminação). Vemos aos poucos o lado podre da justiça de maneira sistemática e revoltante. Porém, ao mesmo tempo, aguardamos ansiosos pelo desenrolar dos eventos que praticamente atravessam o personagem de Bradley Cooper.

O que nos leva mais uma vez a uma “troca de foco”. Dessa vez, quinze anos se passam, e o peso disso é repassado na maquiagem e no clima fúnebre em que isso acontece. Não são dadas dicas explícitas, pois o filme respeita a inteligência do espectador. Porém, sabemos de imediato a conclusão da última conversa que testemunhamos quinze anos atrás. Também descobrimos quase que de supetão o que ocorre com a primeira parte do filme, em mais uma participação digna de destaque para Dane DeHaan (Poder sem Limites).

Ao final, o destino daquelas pessoas já não é mais tão particular. A transição que completa a trama e fecha o ciclo representa a sobrevivência de algo maior que transcende o mero estudo de personagens. O filme se torna o estudo do Cinema como arte de narrar histórias.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2013-11-22 imdb