O Mágico

Wanderley Caloni, October 27, 2010

Esse é o novo longa de Sylvain Chomet, o mesmo diretor de “As Biciletas de Belleville”. Foi baseado em um roteiro de Jacques Tati (Meu Tio). Ou seja, temos aqui um roteiro de algo belo em sua pureza sendo dirigido por alguém com o controle nato do surreal. Não bom.

E fato, na primeira metade do filme nos deslumbramos pela direção de arte do filme, que compõe os quadros mais inspirados das belas cidades por onde o filme passa, ou pelos teatros em que o velho mágico se apresenta; ou pela fotografia, que ilumina com cores quentes e gela com cores frias. Adotando uma comédia baseada em coincidências ingênuas (ex: ensopado de coelho, neve de penas), a trilha sonora acompanha cada passo dos personagens e define o sentimento do momento, contando a história muito melhor do que os diálogos, que inexistem. No entanto, em alguns momentos ela chega a se tornar repetitiva, mas sem nunca perder sua função e sem nunca se tornar artificial.

E se nos encantamos com os pequenos e precisos movimentos dos personagens (como o da senhora que observa o casal no trem, enquanto a pequena Alice encosta sua cabeça no ombro de Jean-Claude Donda (o mágico do título), ou quando a velha escocesa se empolga com as palmas quando ela acende uma lâmpada que improvisa o número do mágico no pequeno bar do vilarejo), é porque estamos descobrindo aos poucos a magia daquele pequeno universo criado para contar a história desse mágico decadente e sua fuga da triste realidade que as pessoas não gostam mais de mágicos.

Ultrapassados por bandinhas de rock recém-chegadas (como demonstrado de forma hilária no número dos “pseudo-Beatles”), os artistas das antigas se vêm enclausurados em palcos obscuros ou até mesmo vitrines de lojas anunciando produtos. É o mundo moderno que dá as costas aos expatriados que antes eram gloriosos e aplaudidos, algo muito parecido com a visão das trigêmeas de Bicicletas.

Mas é injusto comparar a complexidade dos estereótipos criados em Bicicletas com madame Souza, as trigêmeas, o próprio Champion e até o cachorro! Porém, mesmo nos mantendo no universo de O Mágico, do segundo para o terceiro ato vamos perdendo esse deslumbramento e aos poucos perdemos o sentido de estarmos ali assistindo à vida desses personagens, pois já não importa mais. Tudo começa a ficar confuso, pois já não nos interessamos mais pelos personagens que no início nos encantamos. E isso talvez seja, ou não, o reflexo do próprio mágico que as pessoas já não querem mais.

Imagens e créditos no IMDB.
O Mágico ● O Mágico. L'illusionniste (France, 2010). Dirigido por Sylvain Chomet. Escrito por Sylvain Chomet, Jacques Tati. Com Jean-Claude Donda, Eilidh Rankin, Duncan MacNeil, Raymond Mearns, James T. Muir, Tom Urie, Paul Bandey. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-10-27. Texto escrito por Wanderley Caloni.


Quer comentar?