José Padilha encontra o fundo do poço graças à Netflix e sua cegueira ideológica

Desde Narcos fica claro que Padilha não está bem. Acostumado a tentar chocar a sociedade usando detalhes sutis da realidade mais estranha que a ficção (Tropa de Elite, Tropa de Elite 2, Robocop (2014)), o diretor erradicado do Brasil por conta de ameaças à sua integridade e de sua família por conta de um possível Tropa de Elite 3, sua série “O Mecanismo” tenta resgatar o patriotismo brega de um brasileiro que já se esqueceu faz tempo o conceito de patriota, permeado de uma onda direitista extremamente brega. Se a esquerda sabe ser populista com a classe de um pedreiro, a direita consegue passar vergonha até quando está falando sério.

Para essa missão de desvendar um processo de investigação polítcia a série apresenta o detetive com uma síndrome absurda de “fazer o certo” Marco Ruffo, interpretado por um Selton Mello que precisa sussurrar no ouvido do espectador tudo que está pensando. Entre seus pensamentos escutamos como ele fica possesso de não conseguir pegar os caras maus, e como ele é brilhante por catar papéis cortados no lixo e resgatar uma operação milionária de um laranja. Através dessa operação bancária ele e sua escudeira, a delicinha Verena Cardoni (Caroline Abras, que também faz parte da narração) irão caçar os peixes grandes da política brasileira. Começando pelo doleiro “faço cara de pouco caso” Roberto Ibrahim (Enrique Diaz).

Usando nomes falsos ridículos no lugar dos nomes reais da Operação Lava-Jato, a maior operação de investigação e julgamento já feita na história da Polícia Federal, somos obrigados a ver e ouvir nomes que parecem ser usados apenas para tapar o sol com a peneira, e o resultado são os risíveis Banco Brasileiro e Petrobrasil. Além disso, fingindo ser possível colocar no lugar do sempre canastrão Lula e da sempre hilária Dilma atores e personagens completamente aquém da potencialidade que essas duas figuras surreais poderiam render em uma ficção com um elenco mais competente (a hora que Dilma fala sobre “estocar vento” em seu discurso é a primeira grande vergonha alheia do piloto da série), Padilha parece estar orquestrando uma obra pseudo-cômica de forma incidental, pois ela gera riso pela falta de jeito em tratar um tema sério em uma narrativa burocrática que apenas estimula bocejos.

A impressão que fica após assistir ao piloto da série que estréia com oito episódios é que a Netflix resolveu abraçar seus espectadores de direita carentes de obras que lhe representem (como sabemos, todas as obras atuais da operadora de streaming favorecem causas sociais de esquerda). No entanto, a maneira que ela escolheu para isso não poderia ser pior, pois entregar um enlatado de TV a cabo dirigido por um diretor que um dia foi relevante é prestar um serviço novamente à esquerda. No final das contas, talvez tudo não passe de um golpe, mesmo.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2018-03-26. O Mecanismo. Brasil, 2018. Direção e roteiro de José Padilha, com Selton Mello, Caroline Abras, Enrique Diaz. imdb