O Menino e o Mundo

O Menino e o Mundo é uma animação sobre os olhos de um menino enxergando o mundo. E de fato ele consegue isso, com maestria: o mundo que vemos é estático, simplista, ingênuo e dramatizado até a última gota de tinta.

Conta a história desse menino de um lugar isolado que, quando o pai parte de casa, vai atrás dele, e em uma mini-aventura ele descobre que há forças conflitantes no mundo. De um lado um latifundiário do algodão; do outro escravos… ops, funcionários colhendo e fabricando tecido; do outro os militares… ops, a polícia, aparentemente ditatorial; e um pouco mais longe, o capital estrangeiro, dominando tudo e a todos.

Apenas descrever esse cenário é risível. Tão risível quanto os traços usados pela equipe do diretor e roteirista Alê Abreu, que investe em cores e formas lúdicas, como se fosse giz de cera. O resultado é bonito, poético e pobre. Tão pobre quanto a ideologia marxista por trás de sua história, em um drama que não possui heróis ou vilões: apenas a imaginação nefasta de uma criança não tão jovem assim.

Mas o filme não é apenas pobre de espírito: é covarde, também. Explora uma situação para convenientemente jogá-la para o passado, embora esteja com os olhos no presente. Dessa forma se exime de qualquer imperfeição desse universo fantasioso, pseudo-surreal, que talvez exista em uma realidade alternativa, do alto de um terraço gourmet de um artista que aprendeu a venerar seu dinheiro público espalhando propaganda doutrinária. Não à toa, o patrocínio é anunciado como do BNDES, Petrobras e por aí vai a valsa. Já sabemos onde isso chega:

Ao Oscar! Sim, o filme foi indicado a melhor animação; o mundo está polarizado, e os filhos de Occupy Wall Street estão preocupados com o verde de suas fazendas, ou é apenas uma culpa se alastrando até o terceiro mundo. Ou o mais provável: uma animação universal, embora com foco local, mas que não é falado em nenhum idioma conhecido, o que poupa os membros da academia de lerem legendas.

Com o uso de uma trilha sonora igualmente passada e que se repete à exaustão, O Menino e o Mundo pode ser confundido com um hino cheio de cores e formas que se apresentam como uma ideia. Não nos importemos agora com o que ela transmite: isso é Cinema panfletário da melhor qualidade. É envolvente embora simplório, ritmado embora capenga. Ele consegue extrair do seu pouco o tudo que necessita falar. Não há como não gostar de um filme que consegue fazer tanto com tão pouco, embora esse tanto não seja tanto assim…

O Menino e o Mundo deverá ser revisitado na próxima década. E na próxima, e na próxima. É uma história universal que diz mais sobre o contador da história do que da história em si. E nos ensina uma lição: podemos acreditar no que uma criança nos conta, mas nunca na interpretação dela por um adulto. Principalmente se esse adulto esteja do lado dos que monopolizam as armas.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-02-23. O Menino e o Mundo. O Menino e o Mundo (Brazil, 2013). Dirigido por Alê Abreu. Escrito por Alê Abreu. Com Vinicius Garcia, Felipe Zilse, Alê Abreu, Lu Horta, Marco Aurélio Campos. imdb