O Mestre

Desde o início Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um animal não domesticado, obediente aos seus instintos mais primitivos e dotado de traços animalescos e infantis (como se divertir com peidos). Constatamos isso ainda pelo seu ritual de beber um quase veneno preparado por ele e brigar como um animal raivoso e enxergar sexo em qualquer lugar.

Acreditarmos em seu estado animalesco é vital para que entendamos desde o início que a suposta aura de superioridade que Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o tal Mestre do título, parece atribuir à figura do homem não passe de um delírio da sociedade moderna. Para isso a colaboração incondicional dos dois atores em viverem essas caricaturas é o que determina o sucesso na comparação entre esses seres que parecem tão díspars. No entanto, note como Lancaster se enfurece ao menor sinal de crítica aos seus métodos, por mais ponderados e racionais que estes sejam, demonstrando que talvez seja uma versão podada do seu recém-amigo.

O diretor Paul T. Anderson não poupa esforços para demonstrar que o aparente cientificismo nos ensinamentos de Lancaster não passam nunca de sua visão subjetiva do mundo, no qual faz o papel de um profeta em uma seita. Se nos escapa o momento onde seja possível identificar qualquer indício de pensamento científico é porque a resposta mais simples é que simplesmente ele não existe.

Ainda que seja justificável a presença de Freddie como alguém disposto a “aprender” com o Mestre e consequentemente nos fazer entrar em seu universo, e mesmo que seja visível a necessidade de Lancaster em conseguir com que Freddie internalize seu lado animal (talvez até como um desafio ao seu método) o fato é que nunca é possível deslumbrar o porquê perder tanto tempo com alguém irrecuperável da “falha” de ser um humano visceral (e livre) quando é fácil perceber os objetivos de Lancaster giram melhor próximo dos bolsos das desenganadas (e ricas) velhinhas que consola através da viagem no tempo.

Surgindo como um reflexo obscuro do carisma que esbanja Philip Seymour Hoffman ao encarnar uma pessoa dotada do dom do discurso e desprovido de qualquer lógica — apelando, portanto, para a comédia barata para atrair a atenção de todos — Amy Addams é sua versão meticulosa e mais sincera. Ela parece saber que o império crescente do seu pai poderá ser seu quando este partir, o que explica sua assustadora determinação com que parece cuidar do seu pai (ajudando-o inclusive nos momentos mais íntimos).

Quase todas as cenas carecem de trilha sonora, o que torna a introspecção dos atores muito mais realista. No entanto, quando surge, a trilha sonora revela o aspecto obscuro de Lancaster Dodd ao delinear uma série de sons incidentais, que conseguem ilustrar o lado místico e caótico de uma crença que tenta desviar o nosso olhar para o real.

Em detrimento de todos os esforços, e mesmo sendo nobre a tentativa de ridicularizar a obviamente parodiada Cientologia é preciso assumir que o diretor exagerou por demais em seu ódio. Ou talvez não. Quando uma nova religião forma à sua volta as contas bancárias mais pomposas de Hollywood talvez uma crítica ácida e cinematográfica seja a única coisa honrosa a se fazer para salvarmos-nos da insanidade de um mundo gerido pela ilusão do conhecimento.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-02-20 imdb