O Mordomo de Preto

Assistir a O Mordomo de Preto é uma mistura de sensações. Primeiro, tem-se a sensação de estar assistindo um seriado, e não um filme com começo, meio e fim. Depois, a certeza de estar sendo enrolado em um formato muito parecido com os filmes da Marvel atualmente, que prezam por não terminar conflito algum que preste em seus filmes. Porém, a pior sensação mesmo é a de saber que a linguagem cinematográfica está sendo deixada de lado para o bem dos enquadramentos e da plasticidade de uma outra espécie de arte que já se sai bem em seu quadrado. A questão que fica é: para que realizar live-actions de trabalhos sem tradução entre artes? Só para ver como seria com atores “reais”? Bom, sinto informar, mas os personagens criados podem ser bonitos esteticamente, mas estão bem longe de serem considerados reais ou complexos.

Girando em torno de um contrato entre Shiori Genpo, uma menina que se veste de menino e que é uma órfã bastarda de pais bilionários amigos da Rainha, e Sebastian Michaelis, um demônio que gosta de sorrir, independente do que estiver acontecendo ao seu redor, O Mordomo de Preto já diz logo no início ao que veio: criar personagens cool, como um mordomo que mata as pessoas usando facas de passar manteiga, o que adiciona um segundo ícone na estante das “figuras experimentais que não deveriam sair do papel”. O primeiro ícone desta categoria é este (e, pelo menos para mim, está ganhando em disparado caso houvesse uma competição).

A história… bom, ela é irrelevante. Mundo dividido em dois, conspirações, bem contra o mal, vingança. Enfim, nada que já não tivéssemos visto em produções do gênero – estou falando de animes – e que veremos provavelmente muito mais vezes, já que a sanha dos fãs, ou a criatividade dos roteiristas dessas histórias, gira invariavelmente em como o japonês será uma nação poderosa em algum futuro apocalíptico e como o mundo deve se curvar aos seus caprichos (como roupas ousadas ou espalhafatosas).

Porém, pior que isso é ter que aguentar as velhas muletas desse sub-gênero que parece atormentado pela sua incapacidade de criar narrativas fluidas, ainda que ali faltasse criatividade. Dessa forma, os diálogos e narrações são longas, pretenciosas, e irrelevantes. Ainda mais quando as cenas de ação – essas sim, muito bem feitas! – contém muito mais elementos visuais dignos de figurar em uma arte para o Cinema (ainda que flerte com o material reciclado do Ocidente, como Tarantino, Zack Snyder e o agora em voga Matthew Vaughn). Aliás, é digno de nota como o fundo verde, usado abusivamente aqui, consegue se sair harmoniosamente bem, quase os fazendo esquecer que é uma produção de baixo orçamento.

Ainda assim, há muitas virtudes em O Mordomo de Preto que são deixadas de lado para o bem do cool e dos caminhos fáceis, como demonizar seus vilões, criar situações impossíveis para que haja uma reviravolta previsível no último instante, e apelar para artefatos já datados, como a velha bomba-relógio.

De certa forma, O Mordomo de Preto homenageia a comédia do absurdo sem ser engraçado, a ação pastelona sem criar tensão, e o drama surreal sem fazer chorar. Enfim, um trabalho artisticamente vazio, embora plasticamente impecável.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-06-29. O Mordomo de Preto. Kuroshitsuji (Japan, 2014). Dirigido por Kentarô Ohtani, Kei'ichi Sato. Escrito por Yana Toboso. Com Hiro Mizushima, Ayame Gôriki, Yûka, Mizuki Yamamoto, Tomomi Maruyama, Takurô Ohno, Louis Kurihara, Ken Kaito, Chiaki Horan. imdb