O Mundo dos Pequeninos

Não é nenhuma novidade a virtuosidade técnica do estúdio de animação Ghibli — do diretor Hayao Miyazaki — que, entre outros, já produziu pequenas obras-primas como A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Princesa Mononoke (sem contar outros igualmente interessantes, como Meu Amigo Totoro, O Serviço de Entregas da Kiki e Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar). Nesse sentido não é nenhuma novidade descobrir nesse primeiro trabalho de direção de Hiromasa Yonebayashi as mesmas características técnicas que tornaram os filmes do estúdio comparáveis à fábrica de sonhos de Walt Disney.

A história, baseada no romance da escritora inglesa Mary Norton, gira em torno de Arrietty, uma menina que faz parte de uma família de minúsculos humanoides que vivem debaixo de uma casa de campo e que se denominam Mutuários, ou seja, emprestam coisas dos humanos para sobreviver. Sua mãe Homily está sempre preocupada com a segurança de sua filha e seu marido, enquanto este, Pod, é quem faz as buscas pela casa por mantimentos e objetos úteis em sua vida miniaturizada. A maior preocupação da família é não serem vistos pelos humanos, já que isso significaria a necessária migração destes para outra morada. A casa costuma ser tranquila, mas a chegada de um novo hóspede, Sho, um garoto com uma saúde frágil que o impede de brincar normalmente, torna as explorações dos pequenos humanos mais arriscadas.

O fato do histórico dos Mutuários com os humanos ser problemático é um indício inteligente do roteiro de Hayao Miyazaki e Keiko Niwa, pois já identifica para o espectador que o pano de fundo, recorrente da produtora, é a relação do homem com a natureza. Miyazaki costuma filmar com o foco centrado nesse tema. Porém, diferente de sua direção muitas vezes solene, embora igualmente divertida, Yonebayashi resgata de uma história aparentemente simples conceitos extremamente rebuscados para um desenho. É encantador, por exemplo, notar como a pequena Arrietty enxerga o mundo sob seu ponto de vista, e como quando em determinado momento está nos ombros de Sho é possível a nós, espectadores, sentir a sensação de velocidade fora do comum para a menina. Da mesma forma, Yonebayashi é cuidadoso até em demonstrar como os líquidos mudam sua viscosidade quando manipulados por seres do tamanho de um copo, de forma que as gotículas de água da chuva, em vez de molhá-los, apenas fica impregnado em suas roupas.

O mais impressionante na direção segura de Yonebayashi, no entanto, é perceber que mesmo tendo todas as características de uma história infantil o filme evita inteligentemente as brincadeiras tão comuns ao gênero e busca uma abordagem realista e sensível, o que o transforma em um drama humanista extremamente eficaz.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2012-12-06 imdb