O Operário

Wanderley Caloni, January 20, 2019

O Operário é daqueles filmes que apesar de ser um thriller caminha bem no drama, e isso funciona na primeira vez que você assiste, sem saber por que o personagem de Christian Bale não consegue dormir, quanto na segunda vez, quando você já pode se interessar em aspectos mais sutis do excelente roteiro.

Esse duplo aproveitamento do filme funciona porque a personalidade que Bale nos entrega de Trevor Reznik é de uma pessoa que foi se tornando solitária naturalmente, talvez por conta da morte da mãe. Mas para chegar ao ponto de desenvolver uma relação de intimidade com uma garota de programa que contrata mais por companhia e menos por sexo e dar gorjetas extremamente generosas a uma garçonete em um café onde costuma ficar por ter alguém para conversar de madrugada ele precisa ter desenvolvido uma baixa estima considerável.

O mais impactante na performance de Bale, contudo, é ver materializado em sua magreza extrema essa personalidade cada vez mais nula. Ambas as garotas dizem a ele a mesma frase: “se ficar mais magro vai deixar de existir”. Há algumas lendas sobre como e por que Bale teve que ficar magro daquele jeito. O próprio ator disse que conseguiu o feito de perder 30 quilos comendo uma lata de atum e uma maçã por dia, e o ator Michael Ironside disse que o peso pedido pelo roteiro foi fruto de um erro de digitação: “o roteirista estimou o peso do personagem de alguém vários centímetros abaixo da altura de Bale”. Seja como for, o resultado você pode conferir: a aparência de Bale sem camisa é angustiante.

E isso colabora muito para que nós sintamos empatia pelo rapaz. Ele não faz nada de errado no filme, mas por algum motivo não consegue se encaixar. Quando ele é responsável por um acidente, quem o distraiu foi um novo colega, o misterioso Ivan (John Sharian), que vira a peça-chave para que Trevor consiga sair desse pesadelo.

O diretor Brad Anderson escolhe um aspecto noir para seu filme, o que faz todo sentido: essa é a história de um homem consumido provavelmente pelo seu passado, desconhecido, mas cujas consequências conseguimos compreender. O jogo de pistas montado pelo roteirista Scott Kosar é repassado ao espectador de maneira visual, onde a escolha de dois caminhos possíveis, a visão de uma caixa de água, a rota 66, bilhetes na geladeira e tantos outros elementos são jogados para que percebamos a paranoia em que Trevor está entrando, e é difícil perceber em que momento ele simplesmente não consegue mais sair.

A trilha sonora de Roque Baños peca pelo exagero, pois ele tenta nos levar a todo custo para um filme do Hitchcock ou algum desses mistérios antigos, evocando sempre uma chamada um tanto lado B em seus toques. Baños parece empolgado demais pelo material, que sem dúvida é uma oportunidade única, mas ele acaba quase levando tudo a perder.

Mais comedido, apesar de incisivo, é Xavi Giménez, com sua fotografia drenada de cores felizes e onde o cinza e os tons pastéis estão sempre escurecidos pela feiúra e pela falta de iluminação. Note que quando a energia no apartamento de Trevor é cortada é quando as coisas começam a realmente sair do controle de sua vida, e consequentemente o escuro passa a dominar seu coração.

O Operário é um filme que te faz pensar em tudo isso em uma revisita, enquanto para os marinheiros de primeira viagem soa como uma performance pesada de Christian Bale em um ótimo drama. Ele envelheceu bem nesses quase 15 anos, e tem tudo para continuar envelhecendo como um exemplo de direção, roteiro e atuação trabalhando em uníssono.

Imagens e créditos no IMDB.
O Operário ● The Machinist. Espanha, França, Reino Unido, EUA, 2004. Escrito por Scott Kosar, dirigido por Brad Anderson. Com Christian Bale como Trevor Reznik, Jennifer Jason Leigh como Stevie, Aitana Sánchez-Gijón como Marie, John Sharian como Ivan. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-01-20. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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