O Passado

Wanderley Caloni, July 22, 2012

O grande problema quando um relacionamento acaba é que, apesar de tentarmos com sinceridade seguir em frente com nossas vidas, a memória do tempo vivido com a outra pessoa existirá para sempre. Quando Rímini (Gael García Bernal) e Sofia (Analía Couceyro) se separam, mesmo que civilizadamente, algo parece impedir que Sofia aceite essa nova realidade. E este é um filme cuja expressão “peso do passado” realmente se sente.

Apesar da convicção sóbria de Rímini de alguém que mudou o suficiente para não querer mais a vida que tinha, ou embora sua expressão jovem pareça nos dizer que ele não é nada mais que as projeções das loucas que passarão por sua vida, a fotografia sépia de Ricardo Della Rosa denuncia o “peso do seu passado”, nos lembrando constantemente que nada mudou, embora acompanhemos de qualquer forma as novas aventuras amorosas do rapaz. (Esta também é uma mensagem dúbia de como os homens são vistos (no filme e pela sociedade) como cães dispostos a trepar sempre que há a oportunidade, e as mulheres como dóceis cadelas prontas para se prender a um macho e chamá-lo de seu.)

Mas enxergado sob o prisma de novos relacionamentos que lembram o velho, o filme de Hector Babenco parece muito mais um retrospecto ao contrário, onde vemos o que ocorre na vida de Rímini depois da separação, mas sempre tendo o passado como um fantasma a persegui-lo, transfigurado através de uma Sofia cada vez mais descabelada e com roupas de quem esteve trancada em casa todo o tempo. Dessa forma, enquanto seu ex se arrasta em direção a novas sensações, nunca o vemos estar de fato satisfeito com sua nova vida, mesmo que ela mude de maneira muito mais dinâmica do que de sua ex-mulher, ao menos como é sugerido em suas breves passagens.

Transformando os prazeres da vida pós-relacionamento apenas como meras tentativas de fuga das lembranças do passado, o roteiro de Babenco e Marga Goes, baseado no romance de Alan Paulis, brinca com isso através de um curioso mal que acomete Rímini em determinado momento, que trabalha como tradutor audiovisual e intérprete, o que não deixa de ser interessante por fazer parte do tema do passado (e o que é o passado senão as memórias que carregamos conosco?). Porém, na maior parte do tempo a narrativa se limita a nos fazer ver as patinadas de Rímini em sua vida de novos amores, colocando seu argumento através do tédio. Uma pena, pois Sofia acaba surgindo em vários momentos não como uma louca, mas um sinal de sanidade em meio às turbulências da vida moderna.

Enfim, há várias interpretações sobre os diversos personagens que vão se introduzindo em uma história que corta rapidamente. Para ter ideia do ritmo do filme, uma cena de sexo corta para a mulher grávida andando preocupada pelo corredor. Outro corte ocorre depois de um táxi inusitadamente partir e o escritório de um advogado. Esses são os flashes que nos recordamos, e apesar de nosso cérebro remontar as lacunas como achar melhor, o passado é uma reconstrução eterna.

O Passado para mim é um filme sobre as loucas e as vadias, como meu amigo sabiamente sempre me ensinou. Há vadias que não são loucas, e são estas que você deve procurar. Já as loucas, mesmo sendo vadias, a longo prazo não compensam. Atravesse a rua, meu chapa, olhe para o outro lado, e entre em um puteiro. Só assim para transformar O Passado em uma agradável fuga das mazelas do cotidiano de uma vida conjugal que já seria vista como loucura se nossa sociedade fosse minimamente sã.

Imagens e créditos no IMDB.
O Passado ● O Passado. El pasado (Argentina, 2007). Dirigido por Hector Babenco. Escrito por Hector Babenco, Marta Goes, Alan Pauls. Com Mabi Abele, Mariana Anghileri, Mimí Ardú, Paulo Autran, Hector Babenco, Ana Celentano, Analía Couceyro, Gael García Bernal, Alejandro Genes. Texto atualizado em 2019-05-04. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2012-07-22. Revisto em 2019. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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