O Plano Imperfeito

Jun 28, 2018

Imagens

Você já sabe a história pelo trailer, e até algumas das piadas. Ele e ela são assistentes de Lucy Liu e um outro cara (Taye Diggs), que fazem o estilo obcecados pelo trabalho da Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, mas sem o charme, o carisma, a inteligência e o motivo de assim serem. Logo, são apenas egoístas mimados que sugam todo o tempo de seus subordinados, evitando que eles também tenham uma vida social, aguardando pela grande guinada de suas vidas. Quando ambos se encontram na mesma situação lamentável de trabalharem até tarde todos os dias resolvem bancar o cupido para que os dois mimados fiquem juntos e assim tenham mais tempo para suas próprias vidas. O que ocorre se assemelha a tantos outros tabalhos, com as piadas modernizadas para “first world problems” dos 2010s.

Este não é um filme sobre os chefões, mas sobre seus dois dedicados e simpáticos funcionários. Sabemos disso porque mal o vemos, mesmo depois que o plano deles dá certo. E também porque ninguém se interessa em uma comédia romântica por quem não se veste de colorido. A menina se veste, e ela parece se movimentar de maneira espontânea, mesmo que lembre também um ataque epiléptico. Ela é interpretada por Zoey Deutch, uma atriz que já fez pequenas pontas em alguns trabalhos no Cinema e TV e tem o potencial de ser uma sub-queridinha das ComRoms. Ele é interpretado por Glen Powell, o que já diz o suficiente. O importante é que ambos são lindinhos, fofinhos, e você até já sabe quem vai ficar junto no final.

Isso quer dizer que podemos nos concentrar durante o filme sobre seus outros aspectos. Como suas piadas, ou a forma de ver a vida. Ou até mesmo o jeito desajeitado com que as cotas são colocadas aqui. A agilidade com que esses dois agem é típico daquelas séries onde no final da cena toca aquele mesmo som de finalização. Não se trata de um roteiro particularmente inspirador de Katie Silberman, que consegue se soltar bem mais em seu Como Ser Solteira. Além disso, a direção de Claire Scanlon deixa claro que duas mulheres trabalhando nos cargos principais de uma ComRom moderna deveriam ter o dever moral de tornar a história e a posição de seus personagens o mais livre possível do patriarcado. Não conseguem, apenas jogam com as estatísticas pateticamente.

A maior prova disso é que os chefões do filme, que apesar de malvados estão em posição de destaque naquela sociedade, fazem parte de minorias étnicas. Taye Diggs é o negão bem-sucedido, apesar de no filme parecer apagado demais, e até deixar entre os negões ter a atenção roubada por Evan Parke em uma ponta de 5 segundos (que vergonha). Já Lucy Liu, asiática, podemos dizer que não está no seu melhor (de atuação), embora, como podemos perceber em alguns momentos que seu corpo é enquadrado (que chauvinismo é esse, diretora Claire Scanlon?), aos quase 50 anos ela está no seu melhor, sim senhor. Afirmativo.

Não, este não é um filme que desafia o status quo, tenta promover diversidade e um diálogo saudável sobre os limites do bullying corporativo. Ele sequer é engraçado, e coloca um amigo gay de tabela para preencher mais cotas, além do casamento de uma mulher que já dormiu com todos na vizinhança como… empoderamento? Quando quer apelar para a felicidade nas coisas simples começa um diálogo em um restaurante chique sobre como uma pizza de cinco dólares pode trazer felicidade? Muito feio, dona Katie Silberman, sendo contratada pela Netflix para fazer atrocidades semi-engraçadinhas semelhantes que se distancia dos roteiros vigorosos de Nora Ephron e se aproxima de Naked. Shame on you.

Wanderley Caloni, 2018-06-28. Set It Up. EUA, 2018. Escrito por Katie Silberman, dirigido por Claire Scanlon. Com Zoey Deutch, Glen Powell, Lucy Liu. IMDB.