O Poderoso Chefinho
Wanderley Caloni, 2017-04-16

É um alívio assistir a uma animação que não se esforça nem um pouco em ser a primeira de uma franquia, e que corajosamente atravessa todo o arco de seu herói para terminar como um “filme normal”. Além disso, dirigido com uma fluidez dinâmica alimentada por uma criatividade sem limites de seu roteiro – que usa uma chupeta da maneira mais inventiva possível – e sua direção de arte – que explora através de formas e cores os passeios deliciosos na mente de uma criança e suas aventuras – O Poderoso Chefinho é uma animação que subverte um pouco o circuito comercial e em troca recebemos uma divertida história fácil de acompanhar, e que ainda que não esteja completa e redonda do começo ao fim, empolga mais que o suficiente para nos lembrarmos do filme com uma certa memória afetiva.

A história facilmente subverte, assim como Cegonhas, o próprio conceito de onde vem os bebês, explicando visualmente que há alguns bebês fabricados pela Baby Corp que não sentem cócegas e são encaminhados para a gerência. Sem o menor pudor ou explicações redundantes – e destinadas ao fracasso – o pequeno bebê que chega na residência dos Templenton é recebido pelos pais como algo normal, e apresentado ao seu irmão filho único até então como uma criatura adorável, ainda que vestida estranhamente de terno preto e carregando uma maletinha de homens de negócios.

Apresentando mais conceitos que os inicialmente explorados no trailer, a história é surrel e ainda assim conseguimos acompanhar como um conto que é apaixonante em cores e sequências e engraçado no processo, para adultos (piadas subliminares da vida corporativa) e crianças (piadas de bebês, e elas funcionam!). Sua trilha sonora consegue habilmente trafegar entre a aventura onírica e o clima de máfia de filmes como Poderoso Chefão (apesar de apenas seu título brasileiro fazer menção ao clássico de Francis Ford Coppola).

A direção consegue montar sequências habilmente sincronizadas pelo seu editor entre a imaginação de uma criança extremamente criativa em seu mundo de faz-de-conta e a realidade, e implora ao espectador que suspenda sua incredulidade em torno de tantas licenças poéticas. Principalmente as do terceiro ato, que exigem demais da trama, e acaba a desmontando como um castelo de cartas inacabado.

Ainda assim, há alma e paixão em O Poderoso Chefinho o suficiente para entreter com ideias interessantes a respeito de como nossa geração está trocando bebês enérgicos por convenientes pets (e como culpá-los?), além dessa velha rixa entre os filhos únicos e seu novo irmãozinho (ou irmãzinha). Além disso, as piadas impróprias, como lançar algumas notas de dólares ao ar para compensar a falta de um artifício maior estão aí tanto como contra-exemplo como também uma alfinetada no politicamente correto.

Com a fotografia exuberante, a trilha sonora empolgante (na maioria do tempo) e criaturas amáveis apresentadas pelas melhores técnicas de animação do momento aliadas às velhas técnicas do cinema de perspectiva, chegando até ao expressionismo alemão. Um feliz golpe de novidades para o campo dos desenhos para crianças.

★★★★☆ The Boss Baby. USA. 2017. Direção: Tom McGrath. Roteiro: Michael McCullers, Marla Frazee. Elenco: Alec Baldwin (Boss Baby), Steve Buscemi (Francis Francis), Jimmy Kimmel (Dad), Lisa Kudrow (Mom), Tobey Maguire (Adult Tim / Narrator), Miles Christopher Bakshi (Tim), James McGrath (Wizzie / Elvis Impersonator), Conrad Vernon (Eugene), ViviAnn Yee (Staci). Edição: James Ryan. Trilha Sonora: Steve Mazzaro, Hans Zimmer. Duração: 97. Aspecto: 2.35 : 1. Animation. Estreia no Brasil: 30 March 2017. #cinema