O Primeiro Mentiroso

Jul 20, 2018

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Esta é daquelas comédias que tem o humor de comediantes de standup, mas que deu certo. Bom, Rick Gervais dificilmente dá errado. Aqui ele parte de uma história original, o que é louvável, pois ela é mais complicada de desenvolver do que parece. E cai no lugar-comum porque ele não é um roteirista de primeira.

Mas até chegar a nessa conclusão o espectador irá se divertir imensamente do resultado, que é o que importa, afinal de contas. A história já brinca com o conceito de filme nos créditos iniciais. Nosso narrador comenta “aguardem os créditos iniciais… por que temos créditos iniciais? Esses produtores ficam falando como é importante ter créditos iniciais…”. Em seguida ele verbalmente nos informa que essa humanidade onde os eventos se passam não possui o conceito de mentira. Isso quer dizer que todos são os mais honestos possíveis a maior parte do tempo. Em seguida vemos diferentes exemplos de como isso ocorre, como casais tendo uma briga sincera, onde admitem o que um odeia no outro, ou a bizarra relação entre garçons e clientes em um restaurante (o garçom chega dizendo “eu me sinto embaraçado de estar aqui, e você é bonita, o que me deixa mais embaraçado ainda”).

O que é um verdadeiro mistério para mim. A partir de que momento surge essa vontade nas pessoas de dizer algumas verdades para as outras? Elas simplesmente sentem que precisam dizer algo sobre a pessoa com quem conversam e soltam o verbo? Mas pra quê? Essa não me parece apenas uma sociedade que se esqueceu que é possível mentir, mas também uma sociedade com compulsão por machucar pessoas aleatoriamente. Não parece haver um critério sólido sobre como essa regra funciona.

Mas OK. É um conto lúdico. Bonitinho, até. Tem a cara de Rick Gervais, que na Netflix fez talvez a série mais fofa por lá (Derek). O problema é que o herói dessa história é uma pessoa carismática, simples e meio boba, e o personagem que o ator Rick Gervais constrói é até certo sentido um pouco disso tudo, mas lhe falta carisma para que torçamos com ele. Como falta carisma, tanto faz se ele consegue ficar com a garota no final (que é a bela, mas não linda, Jennifer Garner). Se falta essa vontade no espectador talvez essa não devesse ser a trama principal.

Mas tudo bem. Há várias outras sub-tramas que ocupam tempo suficiente de tela para se tornarem fascinantes. Como onde o personagem de Gervais trabalha, como roteirista de filmes. Os filmes nesse mundo são basicamente documentários (eles não podem mentir, lembra?) e todos eles se parecem: se trata de um sujeito sentado e narrando o que os roteiristas escreveram a respeito de algum século na história humana. Imperdível. Qual o século que Gervais escolheu? A Peste Negra. E é por isso que ele será demitido. Ha ha ha.

Outra sub-trama, talvez a que eu mais gosto, envolve a maior mentira de todos os tempos: religião. Você provavelmente não terá notado até o momento em que a mãe do personagem de Gervais precisa de uma mentira inocente para poder partir em paz (as pessoas acreditam, com razão, que quando você morre vai para um vazio existencial). Nesse momento da trama já descobrimos que ele é capaz de contar mentiras, mas como é meio bobo e um péssimo roteirista ele vai descobrindo ao mesmo tempo que pode mentir algo chamado imaginação. É o que o torna o melhor roteirista de todos os tempos (naquele mundo), aliás. Porém, quando vira uma celebridade por ouvirem o que ele fala para a mãe e assim “descobrirem” o que “realmente” acontece quando você morre, sua criatividade não é tão boa assim, e o texto do roteirista Gervais soa um pouco experimental demais para o momento (de repente todos ficam espertos e pedem explições específicas sobre os “mandamentos” que ele prepara). Mas é engraçado, e muito, e entendemos instantaneamente como a criação de religiões pode ser uma das mentiras mais deslavadas e mais baixas da história da humanidade.

Os textos do filme são um deleite para quem está acostumado com a mesmice das comédias americanas. Temos alguma tensão entre o casal principal porque ela é bonita e quer obter os melhores genes possíveis para seus filhos. Como os genes de Gervais irão produzir filhos “gordinhos com nariz redondo e arrebitado”, a ideia de se casarem soa extremamente inadequada. Mas apenas por isso, pois para todo o resto ambos se dão muito bem (embora não fique muito claro por que ele gosta dela, exceto pelo físico). Isso levanta a questão muito inteligente sobre o que pesamos na hora de escolher um par, e de forma mais geral, quais mentiras contamos para nós mesmos para estar junto de alguém. Algo refinado para uma comédia fácil.

Com momentos inabaláveis e inesquecíveis de humor que não comentei aqui, mas que por isso mesmo o filme merece ser visto (uma cena dessas envolve duas caixas de pizza; imperdível), O Primeiro Mentiroso é um filme estilo “Dogma”, onde há piadas inteligentes sendo ditas e atores competentes o suficiente para dizê-las. Tudo é meio lúdico demais, mas isso faz parte do jogo. Um filme para se ver quando quiser algo novo acontecendo em sua cabeça.

Wanderley Caloni, 2018-07-20. The Invention of Lying. Escrito, dirigido e produzido por Ricky Gervais e Matthew Robinson. Com Ricky Gervais, Jennifer Garner, Jonah Hill, Louis C.K. e mais uma trupe de comediantes. IMDB.