O Profissional

2015/03/23

Quando descobrimos que Luc Besson escreveu e dirigiu “Léon”, ou O Profissional, é de ficar boquiaberto como o diretor perdeu a mão por tantos anos, acertando aqui e ali somente (Joana dArc é um ótimo exemplo).

Porém, mais fascinante é como esse filme se desenvolve como ação. Há uma sequência inicial de perder o fôlego que de quebra é econômica em explicar como aquele universo onde a história se passa é realista, mas não tão realista. Há um pouco de humor, mas ele vem desse tom fantasioso, um tom bem sutil, mas etéreo, que preenche a película em todos os momentos que alguma coisa acontece. Inclusindo, claro, a trilha sonora, magistral e tematicamente penetrante.

Para popular esse cosmos do quase real e um pouco fantasioso são escalados três nomes de peso. Ou, deveria dizer, dois nomes e meio. Jean Reno é supremo em sua determinação em se transformar em Léon, o matador profissional que não fala bem inglês (e nem sabe escrever), mas mata como ninguém. Nas horas, vagas, rega sua planta, faz seu exercício diário (mais tarde vamos entender por que ele é tão importante) e dorme no sofá, sempre com uma arma do lado. Suas poucas palavras dizem tudo o que é preciso. A parte mais movimentada de sua vida parece residir em seu cérebro. Pelo menos até o momento em que ele começa a se envolver com Mathilda (Natalie Portman), uma garota de 12 anos sexy. Sim, sexy, e é isso que Luc Besson quer que acreditemos. Afinal de contas, vivendo naquela família disfuncional onde drogas, sexo e a construção de uma fachada maquiada que esconde a miséria dessas pessoas, não duvidamos que uma criança já cresça corrompida. Mas não é só por isso. Investindo pesadamente em tomadas que focam o rosto de Mathilda, brincando com seus lábios soltos, mostrando a garota quase sempre em posições sugestivas, dizendo coisas como “acho que me apaixonei por você” de uma maneira mais erótica do que inocente, é difícil não construir uma Lolita em cima da figura sugestiva (e eficiente) de Portman, na época realmente beirando seus 1213 anos.

E para finalizar, o ápice da loucura realista: um policial corrupto do alto escalão. Gary Oldman é Stansfield, um cara que não se intimida de matar toda uma família por 10% de pó e no final deixar um dos seus capangas para explicar “exatamente o que foi feito” naquele apartamento, agora esburacado até o teto (aliás, outra sequência tensa que me faz ficar triste por Besson não se envolver mais por projetos de ação, e por Michael Bay o fazê-lo). Stansfield é o vilão da maldade pura. Ele não tem qualquer objetivo senão permanecer sendo o topo da cadeia alimentar. Sua loucura se reflete em sua maneira de dialogar, de se vestir, de se portar. Os movimentos precisos das expressões de Gary Oldman colocam em evidência a capacidade de se adaptar ao personagem desse ator. Desde, é claro, que exista alguma esquisitice, velada ou completamente aberta (esse é o caso aqui).

E qual é a história? Quase nenhuma. Não precisamos de muita. É um plot clássico de polícia vs bandido, onde a polícia está corrompida e o bandido não está sendo caçado por ser um fora-da-lei, mas por mexer com os caras errados. Besson sabe disso e se mantém sabiamente econômico do começo ao fim. Apenas como pano de fundo de motivações, há uma lei moral invisível que Léon parece seguir, e podemos notar em sua necessidade de proteger Mathilda sem de fato se tornar sua amante. Lógico, você diria: ele é apenas um ser humano sadio que sabe que fazer sexo com crianças é errado. No entanto, naquele universo tão fantasioso quanto cruelmente realista, acaba se tornando uma marca forte de caráter. Infelizmente, muitos seres humanos na vida real carecem dessa premissa básica.

O clímax do filme se apresenta como um anti-clímax premeditado por nós pelos sinais que a narrativa nos apresenta, seja pelo aspecto cansado do protagonista, ou pelo modo como a câmera caminha em direção à sua redenção, deixando um rastro de ódio que irá virar uma bala letal. Em câmera lenta, claro. Estamos assistindo a perda do heroísmo. Mas por um bom motivo. O que faz toda a diferença do mundo, e o que difere os filmes enlatados de ação em que não damos a mínima para o destino dos seus fracos personagens, e a curva dramática de uma pessoa complexa por dentro, simples por dentro. Exatamente o oposto de uma planta.

★★★★★ Título original: Léon. País de origem: France. Ano 1994. Direção: Luc Besson. Roteiro: Luc Besson. Elenco: Jean Reno. Gary Oldman. Natalie Portman. Danny Aiello. Peter Appel. Willi One Blood. Don Creech. Keith A. Glascoe. Randolph Scott. Edição: Sylvie Landra. Fotografia: Thierry Arbogast. Trilha Sonora: Eric Serra. Duração: 110. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Crime.