O Quarto dos Esquecidos

Oct 11, 2016

Imagens

The Disappointments Room é um terror que se aproveita dos clichês já consagrados nesta década – família em trauma se muda para casa no campo onde algo terrível aconteceu – para fazer Cinema inteligente, abordando questões como feminismo e o terror dentro de nós mesmos. E, como já comprovou o excelente Babadook, existe pior terror do que o que guardamos em nossos corações?

O filme acompanha a forte e independente Dana (Kate Beckinsale), seu marido David (Mel Raido) e o pequeno Lucas (Duncan Joiner) em mudança para uma casa no campo, do lado de uma cidadezinha que mantém suas criaturas grotescas no estereótipo. Porém, são estereótipos que causam um desconforto no limite certo. A risada imperfeita da quitandeira fofoqueira, os lábios finos da velhinha baixinha do antiquário, o luxurioso rapaz conserta-tudo da cidade. Eles estão fugindo dos fantasmas do passado para tentar começar vida nova. Há uma morte na família: uma filha que não chegou a completar um ano de idade.

Além disso, na própria casa residem os medos de Dana na forma das visões que esta começa a ter. Primeiro de um Doberman raivoso que olha ameaçador para a casa, depois de uma menina presa em uma espécie de quarto dentro do sótão (adivinha qual o nome do quarto?) e por fim, de um senhor sisudo, provavelmente o patriarca da família que ali morava, e que possui a capacidade de meter medo apenas com seu olhar (Robert McRary, distinto, parado, mas ainda assim, de meter medo).

Agora o “patriarca” da casa é Dana, que é quem trabalha e cuida das questões maiores da família. Ela é arquiteta que herdou a iniciativa do seu finado pai. Sua expressão sempre tensa, e seus flashbacks sutis e assustadores de dentro de um banheiro, são o que nos mantém em alerta. A direção de D.J. Caruso nos apresenta uma sequência assustadora nesses flashbacks, mas fascinante na construção de seus cortes. Começa em um banheiro do presente, se move para um do passado, e vemos a Dana do presente observando seu próprio passado, em outro banheiro, mais frio, com menos cores.

A fotografia do filme consegue separar bem esse passado depressivo do presente mais promissor (mas igualmente carente de cores e luz). Igualmente eficiente é a direção de arte, que cria um candelabro no meio de uma escada em caracol que sempre parece ameaçador (e isso sem 3D!).

Quem se sai pior é mesmo a trilha sonora, que consegue ser mais clichê que a história, além de inconveniente em alguns momentos, particularmente o terceiro ato, onde o próprio roteiro se confunde, lançando uma série de eventos caóticos que soam mais como despreparo do que surpresa. De qualquer forma, o jantar do final é impactante, mais pela performance de Kate Beckinsale e de como o desespero escala perfeitamente com a proposta do filme.

O Quarto dos Desesperados, ou dos Esquecidos (se decidam, distribuidoras do Brasil!) é antes um filme de sensações, que possui uma história razoável. Ele usa seus clichês ao seu favor, o que é algo raro no terror. E desafia a imaginação do espectador mais do que se expõe, o que é outra coisa rara. E se sai muito melhor que a média por conta disso. Afinal de contas, existe pior terror do que o que guardamos em nossos corações?

Wanderley Caloni, 2016-10-11. O Quarto dos Esquecidos. The Disappointments Room (USA, 2016). Dirigido por D.J. Caruso. Escrito por D.J. Caruso, Wentworth Miller. Com Lucas Till (Ben), Kate Beckinsale (Dana), Gerald McRaney (Judge Blacker), Michael Landes (Teddy), Michaela Conlin (Jules), Celia Weston (Marti), Mel Raido (David), Duncan Joiner (Lucas), Charles Carroll (Old Man). IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.