O Que Eu Fiz Para Merecer Isso?

Apr 15, 2016

Imagens

Eis uma comédia que aproveita clichês consagrados não para discuti-los, mas usá-los como ferramenta narrativa e atingir o cerne de uma questão: em que momento viver com pessoas se torna um empecilho para viver?

Um homem tenta ouvir seu disco preferido, que acabara de achar no mercado de pulgas. Uma “raridade”, de acordo com ele. Para isso, terá que deixar de lado sua rotina e conseguir, por uma hora, paz e sossego para ouvir. E isso é o suficiente para a criação de um exército de estereótipos que não o deixarão sequer cinco minutos de lambuja.

E Une heure de tranquillité é desses filmes, que usa estereótipos como funções. Seus personagens, levemente exagerados, constroem o que na comédia chamamos de farsa. Eles estão aí para ilustrar uma realidade atual: a presença frequente de pessoas em nossa realidade é o que define nossa existência, mas ao mesmo tempo o que a limita. Dessa forma, seja uma esposa melodramática, uma amante abalada pela culpa, uma empregada espertinha, um funcionário estrangeiro relapso, um vizinho tagarela e intrometido, ou um filho que saiu o inverso do pai, não importa quem é quem, embora como eles se relacionem na trama é algo divertido de acompanhar. Mas mais importante que isso, é como tudo isso afeta a missão de nosso “herói”.

E esse herói também não tem nada de especial. Interpretado por Christian Clavier de maneira a despertar simpatia do espectador logo no início, mas que se mantém mesmo depois que encontramos várias falhas de caráter, Michel é um classe média alta e de meia-idade que possui um apartamento bacana com uma sala de estar melhor ainda, mas não consegue uma hora de paz para curtir um som que lhe lembrará justamente dos seus momentos mais felizes… na juventude.

A questão do egoísmo também é colocada na mesa. Mas até quando é egoísmo quando as pessoas que acusam são igualmente egoístas? Aliás, já seria melhor parar com a discussão sobre o egoísmo, pois ele é inerente do ser humano. Seja alguém querendo ouvir um disco, ou alguém querendo salvar imigrantes ilegais, são egoísmos diferentes.

Apesar de artificialmente tenso, a manipulação no filme funciona tão bem, que se torna difícil apontar momentos que parecem forçados. O filme inteiro é forçado, mas nem por isso ele soa falso. Soa apenas como uma comédia de exageros tentando vasculhar por esse caminho a natureza humana.

E se sai maravilhosamente bem nisso. Quando ouvimos um disco riscado, parece o hino da normalidade de volta. É bom ser humano de vez em quando…

Wanderley Caloni, 2016-04-15. O Que Eu Fiz Para Merecer Isso?. Une heure de tranquillité (France, 2014). Dirigido por Patrice Leconte. Escrito por Patrice Leconte, Florian Zeller. Com Christian Clavier, Carole Bouquet, Valérie Bonneton, Rossy de Palma, Stéphane De Groodt, Sébastien Castro, Christian Charmetant, Arnaud Henriet, Ricardo Arciaga. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).