O Que Restou da Minha Vida

Oct 21, 2016

Imagens

Tratando da morte de uma maneira leve para depois reverenciar a perda das pessoas que amamos, O Que Restou da Minha Vida é um misto de temas que combina comédia, romance e drama em uma sequência de idas e voltas não necessariamente confusas, mas frustrantes.

O filme começa explicando o porquê de Schimon (Christoph Letkowski) não se incomodar tanto com a morte: desde pequeno ele gravava seu avô dizer para não se preocupar, pois a morte, segundo ele, é apenas um novo começo. Tanto que ele ouviu, em primeira mão, as ultimas batidas do coração de seu avô.

O velho, além de contar de várias formas a maneira como encontrou sua amada durante a guerra, também dizia que as coisas acontecem por um motivo. Bem, se há algum motivo para a sequência desastrosa que levou Schimon a ficar viúvo da jovem Jella (Karoline Bär), seria para se encontrar com a sorridente Milena (Luise Heyer), com quem começa a namorar duas semanas depois do enterro da esposa.

O diretor estreante – e um dos roteiristas – Jens Wischnewski começa, então, uma jornada que oscila entre o começo de dois romances: o que acabou em morte e o que começou nela. Cuidando para que ambas as histórias de completem e se influenciem, ele consegue unir a fugir de uma cadeira ou um balão roxo como símbolos de um luto que continua apesar da nova vida e do novo amor. Além disso, o roteiro usa e abusa de coincidências para tornar o romance entre eles como algo fruto do destino, mas se esquece de desenvolvê-los como se deve (o trabalho de Milena na ala terminal infantil é usada em uma cena, ignorando a parte triste de encarar a morte através dos inúmeros desenhos das crianças que por lá passaram).

O que faz com que esse seja um filme com um senso de humor bem peculiar, do tipo onde a estátua da falecida é colocada no banco de trás de seu carro para que se encontre a nova namorada no porta-malas. Além disso, o vai-e-vem constante torna os sentimentos do espectador divididos entre o que é certo e errado para Schimon sentir nesse momento. Por outro lado, se torna uma forma visual bem interessante de mostrar como a perda de alguém que fez parte de nossa vida de fato nunca é o fim, pois as impressões e as memórias e parte do nosso caráter continua ativo em nós.

Há elementos bem espertos que fazem do filme um trabalho rico em símbolos. Além do balão e da cadeira já citados, o uso da nova namorada tocando uma corneta soa como algo tão inapropriado quanto escrever músicas para banheiros. Como eu disse, há um senso de humor bem peculiar no filme, e desconfio que isso não se deve apenas por causa do luto.

Porém, talvez a questão mais problemática seja mesmo o terceiro ato, que investe demais na figura de uma amante compreensiva demais com um sujeito que vem delineando sérios problemas psicológicos, além de subitamente fazer o rapaz retroceder sua vida em um dia especial para o novo casal, onde mais uma vez o roteiro soa forçado demais. De qualquer forma, há algo agradável em acompanhar Schimon através da descoberta do luto, seja pelo lado inesperado ou até pelo interessante conceito. O que não o torna automaticamente um trabalho complexo.

Wanderley Caloni, 2016-10-21. O Que Restou da Minha Vida. Die Reste meines Lebens (Germany, 2016). Dirigido por Jens Wischnewski. Escrito por Julia C. Kaiser, Jens Wischnewski. Com Karoline Bär (Jella May), Daniel Arthur Fischer (Young Anton), Luise Heyer (Milena Nelko), Christoph Letkowski (Schimon May). IMDB.