O Que Restou da Minha Vida

Tratando da morte de uma maneira leve para depois reverenciar a perda das pessoas que amamos, O Que Restou da Minha Vida é um misto de temas que combina comédia, romance e drama em uma sequência de idas e voltas não necessariamente confusas, mas frustrantes.

O filme começa explicando o porquê de Schimon (Christoph Letkowski) não se incomodar tanto com a morte: desde pequeno ele gravava seu avô dizer para não se preocupar, pois a morte, segundo ele, é apenas um novo começo. Tanto que ele ouviu, em primeira mão, as ultimas batidas do coração de seu avô.

O velho, além de contar de várias formas a maneira como encontrou sua amada durante a guerra, também dizia que as coisas acontecem por um motivo. Bem, se há algum motivo para a sequência desastrosa que levou Schimon a ficar viúvo da jovem Jella (Karoline Bär), seria para se encontrar com a sorridente Milena (Luise Heyer), com quem começa a namorar duas semanas depois do enterro da esposa.

O diretor estreante – e um dos roteiristas – Jens Wischnewski começa, então, uma jornada que oscila entre o começo de dois romances: o que acabou em morte e o que começou nela. Cuidando para que ambas as histórias de completem e se influenciem, ele consegue unir a fugir de uma cadeira ou um balão roxo como símbolos de um luto que continua apesar da nova vida e do novo amor. Além disso, o roteiro usa e abusa de coincidências para tornar o romance entre eles como algo fruto do destino, mas se esquece de desenvolvê-los como se deve (o trabalho de Milena na ala terminal infantil é usada em uma cena, ignorando a parte triste de encarar a morte através dos inúmeros desenhos das crianças que por lá passaram).

O que faz com que esse seja um filme com um senso de humor bem peculiar, do tipo onde a estátua da falecida é colocada no banco de trás de seu carro para que se encontre a nova namorada no porta-malas. Além disso, o vai-e-vem constante torna os sentimentos do espectador divididos entre o que é certo e errado para Schimon sentir nesse momento. Por outro lado, se torna uma forma visual bem interessante de mostrar como a perda de alguém que fez parte de nossa vida de fato nunca é o fim, pois as impressões e as memórias e parte do nosso caráter continua ativo em nós.

Há elementos bem espertos que fazem do filme um trabalho rico em símbolos. Além do balão e da cadeira já citados, o uso da nova namorada tocando uma corneta soa como algo tão inapropriado quanto escrever músicas para banheiros. Como eu disse, há um senso de humor bem peculiar no filme, e desconfio que isso não se deve apenas por causa do luto.

Porém, talvez a questão mais problemática seja mesmo o terceiro ato, que investe demais na figura de uma amante compreensiva demais com um sujeito que vem delineando sérios problemas psicológicos, além de subitamente fazer o rapaz retroceder sua vida em um dia especial para o novo casal, onde mais uma vez o roteiro soa forçado demais. De qualquer forma, há algo agradável em acompanhar Schimon através da descoberta do luto, seja pelo lado inesperado ou até pelo interessante conceito. O que não o torna automaticamente um trabalho complexo.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-10-21 imdb