O Que Se Move

May 17, 2013

Imagens

Montador de Trabalhar Cansa (2011, Marco Dutra e Juliana Rojas), uma das mais agradáveis surpresas daquele ano no Cinema Nacional, Caetano Gotardo estreia na direção desse filme quase experimental. Quase, pois as nuanças inseridas em suas três historietas trágicas e casuais criam uma dimensão emotiva que não pode ser ignorada. O detalhe mais marcante são as canções entoadas pelos seus próprios atores (não se preocupe quem não gosta de musicais, pois existem apenas três momentos). Nesse sentido, talvez o tempo de experiência na montagem tenha feito uma diferença notável em sua percepção da realidade (aqui a montagem é assinada por outra pessoa — não achei seu nome depois —, mas a direção, montagem e até a composição das canções principais são de sua autoria).

Portanto, por mais inconsequentes e despretensiosas que sejam os três episódios, há um crescente emotivo envolvente, ainda que sua primeira história inicial pareça não se esforçar para isso. Podemos dizer que o choque inicial ao final do primeiro episódio seja o estopim necessário para que enxerguemos o que está sendo proposto, e mesmo com seus defeitos (como os diálogos pavorosos, propositais ou não) cumpre bem o que se propõe. Dito isso, ouvir a mãe cantar uma música sem rimas, sem ritmo e sem propósito nenhum a não ser estabelecer o óbvio (explicar o que ocorreu com o filho com a carga dramática de uma mãe embutida) se torna um guia necessário para entendermos o que está acontecendo diante de nós.

Ao ligar os episódios de maneira mais metafísica do que orgânica, a segunda história envolvendo outra família consegue aos poucos subir o degrau de significados. Alguns ocultos, outros parecendo mero artifício hermenêutico “para aparecer” e outros ainda revelando a alma do filme de maneira a fisgar cada vez mais nossa atenção. No entanto, algumas coisas ainda teimam em nos atirar para fora: mais uma vez os diálogos chegando ao embaraço, o acúmulo de cenas desconexas ou desproporcionalmente longas (que quando estão querendo dizer algo, soam óbvias, e quando não estão, soam obscuras).

Mesmo assim o diretor/roteirista insiste em sua temática, o que revela em seu terceiro ato os momentos mais tensos e propositadamente desconcertantes de todo o filme. Boa parte desse efeito pode ser atribuído à revelação do longa, Fernanda Vianna, a atriz que faz a terceira mãe. Ela quase rouba a nossa atenção completa se a situação já não nos forçasse a isso: o primeiro encontro com o filho roubado da maternidade.

Enquanto tentamos juntar as peças derrubadas pela catarse gerada pela evolução de personagens e situações, o que mais fica na mente é o tema proposto, o que há de comum naquelas histórias. Nos esquecemos do resto e, assim como o cisne do primeiro episódio, vemos o tempo passar sem muito o que fazer.

Wanderley Caloni, 2013-05-17. O Que Se Move. O Que Se Move (Brazil, 2013). Dirigido por Caetano Gotardo. Escrito por Caetano Gotardo. Com Cida Moreira, Andréa Marquee, Fernanda Vianna, Rômulo Braga, Wandré Gouveia, Henrique Schafer, Gabriel Dos Reis, Dagoberto Feliz, Adriana Mendonça. IMDB.