O Rei da Comédia

2016/07/20

Martin Scorsese apresenta uma comédia de humor negro estrelando Robert de Niro e Jerry Lewis, se bem que o humor não é tão negro assim. Ele brinca com o absurdo do show business e seus candidatos à fama apresentando Rupert Pupkin (de Niro), um aspirante a comediante que aos 34 anos ainda vive com a mãe (Catherine Scorsese, mãe do diretor) e que nunca trabalhou um minuto sequer em sua carreira. No entanto, coleciona autógrafos de comediantes famosos (de acordo com ele, Marylin Monroe não era boa atriz, mas tinha jeito para a comédia) e persegue o astro do humor televisivo Jerry Langford (Lewis), além de ter um palco em casa onde ensaia o seu grande show de televisão, assim que conseguir um.

O roteiro do crítico Paul D. Zimmerman espreme a situação de tal maneira que aos poucos adentramos na loucura do tal Pupkin (“geralmente soletram errado, e pronunciam também”) e sua insistência/loucura em ser amigo de Langford e conseguir seu lugar ao sol instantaneamente. Não é algo que se acredita desde o começo, mas de Niro está ótimo o suficiente para esse ser o caso. O primeiro diálogo entre os dois começa no carro do apresentador, após Pupkin invadi-lo. O sujeito não larga o osso do que imagina ser sua oportunidade de ouro, e apesar de receber um não educado (“ligue para minha secretária”), ele assume que deu tudo certo, assim como quem hoje em dia adicionaria um famoso no Facebook na sua lista de amigos – sem resposta – e automaticamente assume que pode passar o fim de semana na casa de veraneio do sujeito.

Não se pode dizer que rola uma química entre os personagens de De Niro e Jerry Lewis, mas uma anti-química muito poderosa. A persona de Lewis faz boa parte aqui, e sua postura profissional e que vai se irritando aos poucos é uma das pequenas pérolas nesse trabalho. Acostumado à comédia física, o seu jeito apressado de andar nas ruas e sua polidez necessária para chegar onde quer são icônicas por não se render ao exagero. Quando está amarrado em uma cadeira com dezenas de metros de fita, sua expressão e seu olhar são impagáveis.

Por outro lado, Robert De Niro apresenta um Rupert Pupkin que convence pelo trejeito. Quem nunca conheceu uma pessoa chata que insiste até as últimas consequências em uma discussão? A discussão aqui é entre Pupkin e a realidade. Vemos suas fantasias mescladas com o que realmente está acontecendo na vida do sujeito – nada – e as cenas dele hipoteticamente conversando com seu ídolo vão de infantil para patético para melancólico em segundos. Os diálogos de Zimmerman (que só escreveu três roteiros na vida, este é o do meio e o único solo) conseguem passar o sentimento exato sem soar repetitivo. Não precisamos aprender que esse é o sonho de um ser com complexo de inferioridade e que respira o fracasso de nunca ter conseguido nada na vida, nem convidar sua paixão do colégio (Diahnne Abbott) para sair por quinze anos. Porém, quando seu diretor da escola vira um convidado especial no show de Langford e pede desculpas em nome de todos da vida de Pupkin por nunca ter acreditado nele, é apenas para confirmar o que De Niro construiu ao longo de todo o filme.

Essa é uma Nova Iorque charmosa só como os anos 80 e os filmes de Marin Scorsese conseguem retratar. Sua luz é vívida como em um quadro expressionista, mas melancólica como Taxi Driver juvenil. Há muito amarelo e vermelho para contar a história de quem vive com um terno que lembra a estática TV quando acaba a programação (com direito a efeitos hipnóticos em alguns momentos). A fotografia de Fred Schuler é didática, eficiente, mas nunca apaixonante. A não ser que você esteja particularmente fascinando também pela direção de arte e figurinos do filme, que retratam bem o tempo que foi produzido através dos exageros naturais da década. Ainda assim, note o exagero maior de Pupkin, destoando ligeiramente de todo o resto, e verá que mesmo em Nova Iorque, terra de alguns malucos, este é um maluco particularmente engraçado.

O resultado de O Rei da Comédia é um misto entre Rede de Intrigas para amadores com O Show de Truman ao contrário. Não dá pra saber qual é a moral da história, nem se existe uma. É um drama perfeito sobre as ilusões da vida, e ao mesmo tempo um filme sobre a esperança lunática de cada um de nós “mostrar seu valor para o mundo”. A comédia é o gênero que gosta de rir da desgraça própria ou alheia. Quando estamos rindo de Pupkin, isso se torna duplamente verdade.

★★★★★ The King of Comedy. USA, 1982. Direction: Martin Scorsese. Script: Paul D. Zimmerman. Cast: Robert De Niro. Jerry Lewis. Diahnne Abbott. Sandra Bernhard. Ed Herlihy. Lou Brown. Loretta Tupper. Peter Potulski. Vinnie Gonzales. Edition: Thelma Schoonmaker. Cinematography: Fred Schuler. Runtime: 109. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Comedy. Category: movies

Share on: Facebook | Twitter | Google