O Resgate do Soldado Ryan

Aquele filme que tem tudo pra dar errado, mas que por uma série de milagres se torna uma obra de arte. A farofa de Steven Spielberg aliada a um roteiro marcado por momentos que sintetizam o sentimento contraditório da guerra pelos olhos de seus soldados. E uma frase que marca o cinema de guerra: “cada pessoa que eu mato parece me levar cada vez mais longe de casa”.

Após o dia D, os americanos precisam ganhar terreno, mas um gosto amargo na boca de seus líderes permanece: milhares de jovens mortos e famílias que nunca mais serão as mesmas. Na esperança de salvar o quarto filho enviado para se sacrificar, a missão inusitada de resgatar um soldado de infantaria em meio ao caos surge como apenas mais uma insanidade das inúmeras que aparecem em tempos sombrios.

O apelo aqui é histórico e pomposo: recompensar a nação pelas carnificinas anteriores. O símbolo é uma carta escrita de próprio punho de Abraham Lincoln se desculpando pela perda dos filhos de uma mãe patriota durante a guerra de secessão. O objetivo é evitar a todo custo perderem-se os valores americanos de vida e liberdade. Comovente para americanos e sensível para o resto da humanidade.

Este é o quarto Ryan que pode ser perdido. O nome Ryan vira sinônimo de soldado anônimo. Ele é um jovem que deverá ser salvo por uma tropa liderada por um capitão que era professor de colégio. Imagine você agora essa metáfora. Não é a última. Metáforas são úteis durante todo o percurso, onde até um pai francês tentando salvar sua filha caçula, além de ser uma cena clichê, pode conter uma mensagem poderosa.

Esta tropa é formada pelos atores perfeitos para o papel. Não é possível falar muito sobre eles no filme da mesma forma que em uma guerra relâmpago mal conhecemos nossos colegas exceto pelas ações de cada novo dia. A morte iminente transforma cada um deles em símbolo de resiliência, cada um de uma maneira peculiar. Suas faces dizem muito sobre cada um. Suas expressões e trejeitos explicam suas ações. E por mais perfeita que se saia esta tropa, há um ar de melancolia os cercando. Parece que vem dos prédios em ruínas.

Há cenas de batalha em planos sequências, câmera na mão, edição perfeccionista aliada a uma primorosa edição de som. Tudo isso compõe o deleite técnico da ação, que é memorável per se e ganha aliados dos fãs de filmes de guerra realistas e viscerais. Parece não haver o que reclamar da produção deste filme. Apenas o que aclamar.

Contudo, as cenas que dialogam com a alma são as mais simples, com a câmera parada, estática, a respirar e refletir o momento. É o rapaz traduzindo a letra de uma música cantada por Edith Piaf saindo de um gramofone colocado em cima de um dos poucos muros de pé em uma escadaria imponente. Lá estão os meninos a observar. A letra fala de amor. O mesmo amor que parece intraduzível quando o caos do ódio toma as rédeas do poder. Uma síntese política e idealista em uma única cena. Eis porque os milagres desse filme parecem sobrenaturais.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2018-01-11 imdb