O Retorno de Sweetback

| Wanderley Caloni

February 18, 2019

Um filme é produzido em 1971. Ele fala sobre um negro que mata policiais para sobreviver e se dá bem no final (foi isso que eu entendi). Ninguém branco produziria um filme desses nessa época. E hoje “O Retorno de Sweetback”, em 2003, fala sobre a Odisseia que foi essa produção.

O diretor é Mario Van Peebles, filho de Melvin Van Peebles, o diretor do filme sobre o que estamos falando. Ele interpreta seu pai naquela época. A narrativa é de ficção documental, com pessoas falando sentadas, mas principalmente a história sendo contada com imagens. O formato do filme é independente, com direito a câmera na mão e iluminação amarelada dos anos 70 com estilo filme 8mm, mas obviamente com muito mais qualidade (e wide). A capa do DVD lembra os primeiros filmes do Roberto Rodriguez ou até mesmo aqueles trashs esquecidos na última fileira da última estante de uma locadora decadente.

Sweetback – original e making of – tem a pegada do movimento negro. Cansados de tanta violência, de serem rebaixados ao status de sub-raça e incapazes de se mover socialmente, o(s) filme(s) foi feito por negros (ou minorias) para negros. É possível respirar o ar black nessa produção moderna, já antecipando o resgate do movimento com Black Lives Matter. Está no ar, está na fala, está na música e no gingado.

Além disso, se trata de um filme de pura tensão. Acompanhamos a produção de um filme de baixo orçamento onde não há orçamento. E Van Peebles na época arriscou tudo, não apenas dinheiro. Já era um cineasta de relativo sucesso que trazia lucros para os donos brancos das produtoras onde trabalhava. E assim como quando todo negro resolve fazer um trabalho sério, uma crítica social, o mundo branco lhe dá as costas. Até aí nada de novidade.

Mas seu filho diretor, Mario, resgata o verdadeiro suor e loucura que era produzir um filme independente black nos anos 70. Salas escuras e esfumaçadas. Brigas entre a reduzida equipe. Há um elenco de primeira. Destaque para Terry Crews como Big T e Joy Bryant como Priscilla (além do próprio diretor/ator). Para o cinéfilo também é um filme instrutivo, pois é possível aprender os percalços do Cinema que ninguém lhe ensinará na faculdade.

Talvez isso sirva de lição para qualquer cineasta independente que queira filmar os seus valores. A trilha é comum a todos. Independente de sua cor, sinta-se negro em O Retorno de Sweetback.

Imagens e créditos no IMDB.

How to Get the Man's Foot Outta Your Ass (aka Baadasssss). EUA, 2003. Dirigido por Mario Van Peebles com próprio roteiro adaptado do livro de seu pai, Melvin Van Peebles, e Dennis Haggerty. Com Mario Van Peebles como Melvin.